Tratado da Esfera

Data de publicação
2009
Categorias
Período
Durante o período final da Idade Média foi designado genericamente por «Tratado da Esfera» todo e qualquer texto que contivesse noções rudimentares de cosmografia. Porventura o mais célebre de todos - e pelo menos o que mais interessa aos Descobrimentos portugueses - foi o escrito na segunda metade do século XIII por João Sacrobosco (John de Hollywood), aliás também autor de uma «Aritmética» que teve certa nomeada, os «Tratados da Esfera» continham, em geral, indicações sobre os círculos fundamentais da esfera celeste (equador, horizonte, eclíptica, coluros, etc.), explicação sobre os vários círculos em relação à posição do observador, alguns dados astrológicos, fundamentos históricos da matéria exposta (Sacrobosco abona-se com frequência em poetas latinos) e ainda uma exposição acerca dos eclipses, quer lunares quer solares. A influência do tratado de Sacrobosco em Portugal foi incisiva. OS guias náuticos, editados em 1509 (?) e em 1516 (?), inserem a primeira tradução portuguesa conhecida do texto latino do autor inglês, com a compreensível omissão de algumas citações eruditas. Mais tarde, o texto foi resumido num Epítome latino, que apareceu anónimo e sem data, mas que tudo leva a crer ser da autoria de Pedro Nunes e anterior a 1537; talvez tivesse servido para guião das aulas que o matemático ministrava na universidade. Exactamente em 1537, Nunes refez a tradução do tratado de Sacrobosco no seu Tratado da Esfera, acompanhando-o de comentários que, em parte, tiveram aceitação na Europa oculta. D. João de Castro, em data que pensamos anterior a 1538, glosou Sacrobosco num texto em forma de diálogo, a que deu o título já habitual de «Tratado da Esfera». E, já no final do século, André de Avelar, sucessor de Pedro Nunes na cátedra de Matemática da Universidade de Coimbra, publicaria um comentário latino ao texto tradicional. Acrescente-se que as «lições de esfera» foram seguidas na «Aula de esfera» do Colégio de Santo Antão de Lisboa (e, frequentemente, com desenvolvimentos que se ramificavam até à náutica) e que ainda existem apontamentos sobre o texto de João de Sacrobosco, seguindo as lições universitárias ou colegiais. De resto, está comprovado que o cosmógrafo teve influência em Portugal até ao século XVIII.

Artigo originalmente publicado no Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, dir. Luís de Albuquerque, e reproduzido por cortesia do Círculo de Leitores