Roteiros

Data de publicação
2009
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Os roteiros são os textos náuticos que os marinheiros portugueses começaram a escrever no século XV para deles se socorrerem nas viagens; continuadores dos portulanos mediterrânicos, os roteiros deviam indicar os principais portos e os acidentes de uma linha costeira, incluindo também linhas de rumo que os ligavam, as distâncias que os separavam; a par disso, forneciam eventuais indicações (cor da água, aparecimento de determinados peixes, etc.) que dessem ao piloto uma indicação do lugar aproximado em que se encontravam e eram quase sempre acompanhados de conhecenças terrestres. O mais antigo exemplar de um roteiro português, referente a uma parte da costa ocidental africana, é habitualmente designado por «Este livro é de rotear» (a partir das palavras com que se inicia) e está incluído no chamado Manuscrito de Valentim Fernandes (edição da Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1940). Deve datar de c. 1485, segundo opinião emitida por Vitorino Magalhães Godinho, que nunca foi contestada. A roteirística portuguesa é riquíssima, mas ainda não foi completamente estudada, nem mesmo a respeito dos roteiros que correm impressos sob a responsabilidade dos cosmógrafos, prática que teve início no século XVII; alguns estão editados e há um caso em que se procedeu ao seu estudo: é o dos roteiros referentes ao Sudeste asiático, de que Pierre-Yves Manguin se ocupou há anos, analisando-os criticamente e editando-os. Se os roteiros portugueses foram, em alguns casos, recolhidos em manuscritos que lhes são exclusivamente dedicados (e alguns deles hoje perdidos!), outros incluem-se em livros de marinharia, género de textos em que se coligia tudo o que podia interessar aos pilotos, desde as regras de navegação astronómica até à indicação de práticas marinheiras de diversos tipos; há ainda um terceiro grupo de roteiros portugueses que apenas são conhecidos através de traduções que tiveram na Europa. Por outro lado, se os roteiros mais antigos correram anónimos, a partir de meados de Quinhentos conhecem-se os seus autores, que eram todos pilotos notáveis - como Diogo Afonso, Vicente Rodrigues, Gaspar Ferreira Reimão e outros. Além disso, como seria natural, o escrito primitivo de um roteiro era subsequentemente, aperfeiçoado pelos pilotos que a ele recorriam, de modo que o texto acabava por ser uma obra colectiva de sucessivas gerações de pilotos; assim, e para dar um dos mais notáveis exemplos, o «Roteiro da carreira de Índia», já na versão conjunta de Diogo Afonso e Vicente Rodrigues, veio a ser mais tarde revisto por Reimão, com toda a probabilidade pelo final do século XVI, e foi essa a versão que nos chegou em língua portuguesa [Roteiro da Navegação da Carreira da Índia (…) tirado do que escreveu Vicente Rodrigues e Diogo Afonso, pilotos antigos. Agora novamente acrescentado (…) por Gaspar Ferreira Reimão, 2ª edição prefaciada por A. Fontoura da Costa, Lisboa, 1939]; o texto original de Diogo Afonso, que foi aproveitado pelo holandês Linschoten, considera-se irremediavelmente perdido. Seguindo a lista publicada por Fontoura da Costa (A Marinharia dos Descobrimentos, 3ª edição, Lisboa, 1940, pp. 436-474), podemos indicar aqui alguns dos mais significativos roteiros portugueses, que descrevem milhares e milhares de quilómetros de costas: «Roteiro de Goa para Ceilão», de Gonçalo Álvares (inserido num códice da Casa Cadaval, datável do século XVII); «Roteiro» não especificado, de Lucas Andrade, que se considera perdido; «Roteiro das Índias para o Porto Pequeno de Bengala», de Duarte Cabesseira, estando igualmente desaparecida a cópia que pertenceu à livraria do conde de Castelo Melhor, mas conserva-se uma outra incluída no referido códice da Casa Cadaval; «Roteiro de toda a Costa do Brasil», de Diogo de Castro, escrito em 1681, de paradeiro incerto; «Roteiro da Costa de Angola», de Manuel Cerveira e Domingos Fernandes, que está na Biblioteca Pública de Évora; «Roteiro de Goa para Moçambique», de Vicente de Sintra, também copiado no códice da Casa Cadaval; «Libro universal das derrotas, alturas, longitudes e conhecenças de todas as navegações destes reinos de Portugal (…)», compilado por Manuel Gaspar em 1594 e que se conserva na Biblioteca Nacional de Lisboa, etc. A par destes textos, que nunca foram seriamente estudados, outros existem que vieram a ser editados e por vezes com o conveniente aparato crítico: contam-se neste grupo os três célebres roteiros de D. João de Castro («Roteiro de Lisboa a Goa», «Roteiro de Goa a Diu», «Roteiro do Mar Roxo»), com várias edições; o aludido roteiro de Ferreira Reimão; o «Roteiro da Navegação da Índia», de Manuel Monteiro e Gaspar Ferreira Reimão, que Fontoura da Costa atribuiu erradamente a João Baptista Lavanha [Humberto Leitão, Dois Roteiros do Século XVI (…) Atribuídos a João Baptista Lavanha, Lisboa, 1963], e alguns outros, que foram copiados em livros de marinharia e com estes editados, como é o caso dos que se incluem no Livro de Marinharia de João de Lisboa (edição de Brito Rebelo, Lisboa 1903), no Livro de Marinharia de Manuel Álvares (edição de Luís de Albuquerque, Coimbra, 1969) ou ainda no Livro de Marinharia de Gaspar Moreira (edição de Leon Bourdon e Luís de Albuquerque, Coimbra 1977). Muitas colecções destes textos continuam inéditas e nunca foram detidamente apreciadas; podemos citar como exemplos, além dos contidos no aludido códice da Casa Cadaval, os do códice 1507 da Biblioteca Nacional de Lisboa e a colecção dos «Roteiros dos Mares da Índia» (que também pertenceu à livraria do conde de Castelo Melhor e está desencaminhado). Nesta notícia procurou-se apenas dar uma ideia de como a roteirística portuguesa dos séculos XV e XVII é rica e pode, sem exagero, considerar-se um dos grandes legados do período das grandes viagens marítimas, mas tem de se reconhecer que o seu estudo tem sido tão desprezado que nem sequer possuímos um inventário completo de todos os roteiros portugueses.

Bibliografia:
MANGUIN, Pierre-Yves, Les Portugais sur les Côtes du Viet-Nam et du Campa, Paris, 1972.

Artigo originalmente publicado no Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, dir. Luís de Albuquerque, e reproduzido por cortesia do Círculo de Leitores