Casa comercial dos Welser

Data de publicação
2012
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A família dos Welser deixa-se documentar em Augsburgo, na Alta Alemanha, desde 1246, pertencendo ainda no século XIII ao patriciado da cidade. Já na Idade Média o comércio dos Welser ganhou relevo internacional. No século XV iniciou-se a ramificação da família. Entre 1496 e 1498 a casa comercial de Anton Welser criou, com os Vöhlin de Memmingen, uma companhia que, até à sua extinção em 1517, se tornou fundamental para a ascensão da casa dos Welser. Com esta fusão a nova empresa juntou um capital de cerca de 250.000 florins, constituindo na altura a maior companhia de mercadores-banqueiros em todo o território alemão. Ocupou um papel dominante na alta finança europeia, na exploração das minas de prata no Tirol e na Saxónia, bem como no comércio com especiarias, metais, têxteis, algodão, lã e Barchent (fustão).

A companhia dos Welser(-Vöhlin) foi, entre as grandes casas comerciais da Alta Alemanha, a primeira que reagiu às mudanças significativas no comércio de especiarias após a abertura da Rota do Cabo pelos Portugueses. Em 1502 enviaram uma delegação, chefiada por Simon Seitz, à corte portuguesa para entrar em negociações directas com D. Manuel I. Com a mediação do célebre impressor Valentim Fernandes, os Welser alcançaram, em Janeiro de 1503, privilégios muito favoráveis que facilitaram a sua fixação em terras portuguesas e a participação directa no comércio ultramarino. Poucos meses depois estabeleceram a primeira feitoria de uma casa comercial alemã em solo português. O seu representante, Lucas Rem, comprou, em Setembro de 1503, uma casa para os Welser em Lisboa, permanecendo em Portugal até 1508 na função de feitor. Segundo os seus apontamentos autobiográficos, o denominado «Diário de Lucas Rem», sabe-se que a companhia participou, em 1505 e 1506, na armação das frotas de Índia, comandadas por D. Francisco de Almeida e Tristão da Cunha, respectivamente. Em 1505 os Welser estiveram integrados num consórcio, composto por várias casas comerciais de Augsburgo e de Nuremberga e por alguns mercadores genoveses e florentinos, que investiu, em três dos vinte navios, um capital de 65.400 Cruzados, sendo os Welser o maior investidor, a contribuir com 20.000 Cruzados. Na pessoa de Balthasar Springer viajou, a bordo da Lionarda, um representante dos Welser para a Índia. Quando a armada voltou a Lisboa, em 1506, os negócios com a coroa portuguesa complicaram-se bastante, porque D. Manuel I tinha monopolizado, entretanto, o comércio da pimenta e recusava-se agora a entregar aos comerciantes alemães as mercadorias a que tinham direito. Seguiram-se processos muito morosos até se chegar a um acordo, pelo qual os Welser receberam apenas uma parte da sua pimenta, sendo, em troca, recompensados em açúcar. Apesar destas contrariedades os Welser conseguiram tirar grande proveito daquela empresa. Pelas indicações de Rem o lucro rondou os 150%.

Menos favoráveis foram os resultados financeiros da segunda participação alemã numa armação de uma frota portuguesa com destino à Índia. Foram novamente os Welser que investiram juntamente com os Imhoff de Nuremberga e o português Rui Mendes – desta vez apenas com cerca de 3.500 Cruzados – em três dos 15 navios, que em 1506 partiram sob o comando de Tristão da Cunha. Como se perderam dois dos três navios já na ida para a Índia, esta expedição terminou para os investidores germânicos num fracasso. Nas décadas seguintes, os mercadores-banqueiros alemães desistiram da sua participação financeira nas aventuras ultramarinas portuguesas, o que se explica não apenas com o insucesso da empresa de 1506, mas, em primeiro lugar, pela política monopolista de D. Manuel I.

Na primeira década do século XVI a companhia dos Welser efectuou em Portugal, segundo Lucas Rem, “um volumoso e considerável comércio”, vendendo cobre, chumbo, vermelhão, mercúrio, panos flamengos e cereais para comprar, sobretudo, especiarias e ainda azeite, vinho, figos, marfim, e algodão. Também o açúcar madeirense ganhou um papel de relevo nas importações dos Welser, que possuíram, a partir de cerca de 1507, durante alguns anos uma feitoria no Funchal. Os negócios referentes ao açúcar estiveram no centro das atenções de Lucas Rem durante a sua segunda estadia em terras portuguesas, entre Agosto de 1509 e Março de 1510. Quando o feitor dos Welser se despediu definitivamente de Portugal, deixou o seu irmão, Hans Rem, como sucessor que ficou nesta função nos meses seguintes, apoiado por Gabriel Steudlin que se tornou feitor em 1511. Nos documentos portugueses do século XVI os nomes destes e de outros agentes comerciais alemães muitas vezes não se deixam apurar com certeza, pelas formas diferentes que geralmente ganhavam. No entanto, é de supor que atrás dos mercadores “João de Augusta” e “Gabriell” que aparecem nas fontes originais, se escondem Hans Rem e Gabriel Steudlin. O último mencionado deixa-se provar como feitor dos Welser em Lisboa pelo menos até 1516. Em 1517 um “Gabriell, allemão” forneceu grandes quantias de prata à Casa da Moeda. Não se sabe ao certo quando e por quem Gabriel Steudlin foi substituído. Mas encontra-se provada a presença de um feitor dos Welser na capital portuguesa ainda em 1521.

A importância que a coroa portuguesa deu aos mercadores-banqueiros alemães nas primeiras duas décadas de Quinhentos, é sublinhada pelas viagens de Tomé Lopes e Rui Fernandes Almada em 1515 e 1519, respectivamente, para Augsburgo e Nuremberga Estes dois altos funcionários da Feitoria de Antuérpia encontraram-se aí com os responsáveis dos Welser e de outras grandes casas comerciais locais para acordar contratos sobre cobre e pimenta como mercadorias principais.

O «Diário de Lucas Rem» refere que os Welser tiraram grandes rendimentos do comércio com Portugal, sobretudo entre 1505 e 1507 e em 1516/17, nos quais a companhia obteve uma margem de lucro acima dos 13% por ano. Na terceira década do século XVI, quando várias casas comerciais da Alta Alemanha se retiraram do comércio das especiarias, os Welser continuaram a comprar pimenta à coroa portuguesa. É, porém, de constatar que as atenções da companhia se viraram, nesta altura, mais para o comércio colonial espanhol devido às consequências da eleição de Carlos V como Imperador do Sacro Império Romano-Germânico em 1519, eleição esta, que foi substancialmente financiada pelos Welser e Jacob Fugger. Exemplo da nova orientação económica da casa dos Welser é o seu ambicioso projecto referente à colonização da Venezuela, que terminou, no entanto, num fiasco.

Quase ao mesmo tempo que o interesse dos Welser de Augsburgo nos negócios portugueses diminuia, instalou-se o ramo nuremberguês da família em Lisboa. Os Welser de Nuremberga imiscuíram-se no comércio com pedras preciosas e mantiveram, nos anos 30 e 40 do século XVI, representantes permanentes (p. ex. Francesco Lobo, Hans Schwerzer, Hans Ortt, Jan van Hilst) na cidade do Tejo.

Na segunda metade do século XVI os Welser de Augsburgo voltaram a intensificar os seus comércios em Portugal: primeiro, nos anos 70, através do seu concidadão, Konrad Rott, que negociou com pimenta, e depois, em finais do anos 80 e início dos anos 90, juntamente com os Fugger. As duas famosas casas comerciais alemãs pertenceram nesta altura aos contratadores que adquiriram anualmente especiarias da coroa portuguesa. Em 1587 Ferdinand Cron, agente comercial dos Fugger e da companhia de Marx e Matthäus Welser, deslocou-se a Cochim, onde ergueu uma feitoria. Em Lisboa, os Welser foram representados por Hans Christoph Manlich, a quem se seguiu, após a sua morte em 1594, o seu irmão Philipp Manlich. Com este devem ter terminado, em data desconhecida, as actividades da feitoria portuguesa dos Welser. Em 1614 a Companhia de Augsburgo foi à falência partilhando, deste modo, o mesmo destino que tinha ocorrido, quatro anos antes, ao ramo nuremberguês da família.

Bibliografia:
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