Armada da Índia de 1500

Data de publicação
2009
Categorias
Período
Área Geográfica
Os sucessos da armada de 1500, que demandou a Índia sob o comando de Pedro Álvares Cabral, e que protagonizou a descoberta oficial do Brasil, bem como os seus protagonistas, têm merecido estudos com conclusões muito variadas, seja relativamente ao curso dos acontecimentos seja no que respeita aos indivíduos que os realizaram. Com efeito, a escassa documentação existente e o carácter contraditório de muitas das informações veiculadas pelos cronistas, permitiram o aparecimento de versões diferentes por parte de quase todos os que tentaram reconstituir os principais factos ocorridos entre Março de 1500 e Julho de 1501. No entanto, é possível apresentar uma sequência coerente dos sucessos dessa armada, se nos basearmos apenas nos documentos produzidos pelos próprios protagonistas e pelas testemunhas oculares; seguindo esta opção, constata-se que não há contradições nas informações veiculadas por essas fontes. Pelo contrário os dados recolhidos em cada uma delas ou são coincidentes ou são complementares, mas nunca apresentam versões divergentes, como sucede quando se utiliza simultaneamente as crónicas, escritas umas décadas mais tarde.

Com efeito, os textos das crónicas só raramente corrigem as informações que podemos retirar da documentação avulsa, produzida no próprio momento. É de crer, inclusive, que algumas das controvérsias e dos erros que persistem em torno da história dos Descobrimentos decorrem da tentativa vã de harmonizar os equívocos dos cronistas com os dados existentes nas fontes primárias. Se por um lado os cronistas nos dão uma série de informações preciosas, que complementam as notícias das fontes primárias, por outro introduzem elementos perturbadores, que geram enormes confusões, particularmente Gaspar Correia, no caso desta armada. Não se pretende negar o valor das crónicas, mas apenas relativizá-lo e hierarquizá-lo no contexto da massa documental disponível. Seguindo esta linha metodológica, acompanhemos então os principais acontecimentos que marcaram a expedição de 1500, sob o comando de Pedro Álvares Cabral.

O texto que se segue foi retirado da introdução da obra "Descobridores do Brasil. Exploradores do Atlântico e Construtores do Estado da Índia" (pp. 13-20); aí, o leitor interessado encontrará abundante suporte crítico em que são justificadas todas as opções tomadas nesta cronologia.

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A armada era composta por 13 navios, "entre naus navios e caravelas". 11 navios pertenciam à Coroa e dois eram de armadores particulares; tratava-se em ambos os casos de associações luso-italianas; numa entrava o conde de Portalegre; na outra eram sócios D. Álvaro, Bartolomeu Marchioni e Girolamo Sernigi. Dois navios do rei iam destinados a Sofala.

Os capitães eram os seguintes: Pedro Álvares Cabral era o capitão-mor, por carta de 15 de Fevereiro de 1500. Viajava numa nau grande de que era o capitão. Sancho de Tovar, sota-capitão da armada era capitão de uma "nau grande", a El-rei, de 200 tonéis. Viajavam, seguramente também em naus os capitães d'el-rei Vasco de Ataíde, Nicolau Coelho, Simão de Miranda de Azevedo, Aires Gomes da Silva, Simão de Pina e Diogo Dias. Pero de Ataíde comandava a caravela São Pedro, de 70 tonéis, e é muito provável que o navio de Bartolomeu Dias também fosse uma caravela. A estes acrescentavam-se ainda Luís Pires, por exclusão de partes o capitão do navio do conde de Portalegre, Nuno Leitão da Cunha, capitão da nau Anunciada e Gaspar de Lemos com um navio pequeno.

A dimensão comercial da armada era da responsabilidade de Aires Correia, que levava consigo seu filho António Correia. Tinha por escrivães da despesa da feitoria, Pero Vaz de Caminha e Gonçalo Gil Barbosa (que levava consigo seu sobrinho, Duarte Barbosa), e por escrivães da receita Martim Neto e Afonso Furtado. Na armada seguiam clérigos, entre os quais "frades de observância" para ficarem na feitoria de Calicute, que iam chefiados por frei Henrique. Viajavam também Baltasar e outros três indianos trazidos por Vasco da Gama, assim como Gaspar da Índia, que também viera com o Gama. A armada partiu a 9 de Março. Passou pelas Canárias a 14 desse mês e por Cabo Verde a 22. Perdeu-se no dia seguinte, a nau de Vasco de Ataíde. A 24 de Abril avistaram o Brasil.

Antes de prosseguirem viagem, vários oficiais escreveram a D. Manuel I, nomeadamente Aires Correia, e capitães de naus. O navio com o aviso da descoberta, iniciou a viagem em direcção a Portugal, no dia 1 de Maio. O capitão-mor despachou para o Reino com a notícia o navio de apoio que viera em conserva, carregado de mantimentos. Em Lisboa, a chegada desse navio passou despercebida. Alguns membros da armada desconfiaram que se tratava de terra firme, mas outros insistiam que se trataria de uma ilha. O contacto com os indígenas foi pacífico. Ficaram no Brasil dois degredados e dois grumetes que fugiram da nau capitania na última noite. A 1 de Maio foi celebrada missa na praia com grande solenidade. A armada retomou viagem a 2 de Maio.

Junto ao cabo da Boa Esperança, a 20 de Maio, perderam-se três navios do rei e o do conde de Portalegre. Eram seus capitães, Luís Pires, Aires Gomes da Silva, Bartolomeu Dias e Simão de Pina. Na mesma altura, desgarrou-se outro navio, que era capitaneado por Diogo Dias.

Seis navios (as naus de Pedro Álvares Cabral, Sancho de Tovar, Nicolau Coelho, Simão Miranda de Azevedo e de Nuno Leitão da Cunha, mais a caravela de Pero de Ataíde) reagruparam-se em Quíloa, a 26 de Julho, e permaneceram aí durante 3 dias; antes, as naus que seguiam com a de Cabral passaram por Moçambique no dia 20. Chegaram a Melinde a 2 de Agosto; a 6 de Agosto o capitão-mor desembarcou dois degredados, que tinham por missão tentar descobrir as terras do Preste João. O rei de Melinde deu-lhes dois pilotos guzerates. A armada prosseguiu viagem a 7 de Agosto.

Atingiram a costa indiana a 22 de Agosto. Demoram-se em Angediva cerca de duas semanas, onde os clérigos celebraram muitas missas e onde muitos membros da tripulação se confessaram e comungaram. Depois, prosseguiram viagem e chegaram a Calicute a 13 de Setembro.

Depois dos primeiros encontros, as negociações arrastaram-se e os navios continuavam por carregar. Enquanto se estava neste impasse, surgiu em Calicute uma nau grande que levava elefantes de guerra. O Samorim pediu a Cabral que capturasse essa nau, o que foi feito com a intervenção apenas de Pero de Ataíde, com a sua caravela que era o navio mais pequeno da armada. A sua guarnição foi então momentaneamente reforçada com alguns fidalgos, como Duarte Pacheco Pereira, Vasco da Silveira e João de Sá.

A 16 de Dezembro, estavam apenas duas naus carregadas, o que levou Pedro Álvares Cabral a atacar um navio de mouros que iria "cheio" de especiarias, confiando numa autorização que lhe teria sido concedida pelo Samorim. Esta acção provocou a reacção dos muçulmanos e levou o Samorim a autorizar o ataque à feitoria; no combate morreram mais de 50 portugueses, tendo escapado uns 20 entre eles o filho de Aires Correia. Os sobreviventes foram resgatados por uma flotilha de batéis, comandada por Sancho de Tovar, pois Pedro Álvares Cabral estava doente; o capitão-mor deu ordens para retaliar, tendo sido aprisionadas e saqueadas 10 naus de mouros e as suas tripulações massacradas; depois a armada bombardeou a cidade. Ficaram escondidos em Calicute dois portugueses: Fernão Peixoto, de Vila Franca e João Rodrigues.

A armada partiu então para Cochim, onde chegou a 24 de Dezembro; teve um excelente acolhimento e as naus foram carregadas de especiarias em 12 ou 15 dias; Cabral decidiu deixar aí sete homens com o feitor: o feitor era Gonçalo Gil Barbosa, os escrivães Lourenço Moreno e Sebastião Álvares, o intérprete Gonçalo Madeira de Tânger , que ficaram acompanhados por alguns degredados. Encontraram cristãos siro-malabares em Cranganor e dois deles quiseram vir a Portugal. Mensageiros de Coulão ofereceram então os préstimos do seu porto aos Portugueses.

A 9 de Janeiro, quando a armada tinha a carga quase completa, surgiu uma esquadra de Calicute, a que Cabral só não deu luta por a nau de Sancho de Tovar ir "muito na volta do mar". Tendo largado do porto para enfrentar o inimigo, a armada já não regressou a Cochim, e fundeou junto a Cananor, a 15 de Janeiro, onde foi de novo bem acolhida; como os navios já estavam abastecidos compraram aí apenas 100 bahares de canela (c. 400 quintais), e algum gengibre embora as autoridades locais quisessem vender-lhes muito mais mercadorias. Cabral escreveu daí cartas ao rei de Cochim e a Gonçalo Gil Barbosa explicando causa da partida súbita e iniciou viagem de regresso a 16 de Janeiro, levando consigo dois representantes de Cochim e um de Cananor.

Após a nau de Sancho de Tovar se ter perdido, a 12 de Fevereiro, por ter encalhado junto à costa africana, Cabral despachou Tovar na caravela a fim de reconhecer Sofala, levando consigo um piloto local. Os restantes navios quatro navios foram reparados em Moçambique e partiram juntos, mas uma das naus (a de Nicolau Coelho ou a de Simão de Miranda de Azevedo) desgarrou-se antes do cabo da Boa Esperança.

Mais tarde, Cabral ordenou que a nau Anunciada, que era a mais rápida se separasse, para dar notícias ao rei com maior brevidade. A nau capitania e a que a acompanhava encontraram-se, no início de Junho, na costa da Guiné, próximo do cabo Verde, com a armada de Gonçalo Coelho, que ía explorar a orla costeira brasileira, e em que se incluía Américo Vespúcio; tiveram então notícias de que a nau de Diogo Dias chegara a Cabo Verde, depois de uma viagem atribulada pela costa oriental africana, até ao cabo Guardafui, em que morrera quase toda a tripulação.

A Anunciada chegou ao Restelo na tarde de S. João. No final de Julho, chegam outros quatro navios; primeiro a nau de Cabral e a que vinha em sua conserva, e no dia seguinte a que se desgarrara e a caravela que fora a Sofala. O navio de Diogo Dias chegou mais tarde.

Bibliografia:
COSTA, João Paulo Oliveira e (coord.) Descobridores do Brasil. Exploradores do Atlântico e Construtores do Estado da Índia, Lisboa, Sociedade Histórica da Independência de Portugal, 2000.