Almanaques

Data de publicação
2009
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Para a prática da astrologia, muito intensa durante a Idade Média, e mesmo até ao século XVII, era absolutamente indispensável organizar compilações que contivessem tábuas com as posições do Sol e dos planetas no Zodíaco, listas de estrelas com as suas coordenadas equatoriais, indicações sobre a conversão de calendários e outros dados importantes para os fins em vista. Se estudarmos as tábuas solares de algumas compilações, concluir-se-á que várias delas foram calculadas no início da era cristã, ou mesmo antes; isto significava que a prática da astrologia é muito antiga, embora da que se praticava na Antiguidade apenas tivessem restado vagos indícios. Com o tempo, os almanaques assim concebidos vieram a transformar-se; quando deram maior peso à informação verdadeiramente astronómica, cederam o lugar às chamadas «tábuas» ou «efemérides» (estas compõem-se, afinal, de conjuntos de tábuas), de que são exemplos bem conhecidos as Tábuas ditas do rei Pedro de Aragão ou as Tábuas de Afonso X de Castela, e, por outro lado, as Efemérides de Regiomontanus; quando, pelo contrário, permitiram que nelas se salientasse a informação astrológica, os almanaques cederam o seu lugar aos chamados Reportórios dos Tempos, que se tornaram verdadeiramente populares em folhetos muito divulgados entre nós; não desdenharam editar Reportórios, e certamente pelo lucro que tal género de obras propiciava, cosmógrafos com o nome de André de Avelar (o seu livro teve, de resto, várias edições) e Manuel de Figueiredo; todavia, o percursor desse género de obras em Portugal foi o alemão Valentim Fernandes, que em 1518 fez imprimir o primeiro Reportórios dos Tempos em língua portuguesa, mas traduzido de um original castelhano de André de Li. Os Reportórios ligam-se aos almanaques por publicarem quase sempre tábuas astronómicas, mas o seu principal objectivo é apontar previsões astrológicas, dar algumas regras elementares sobre astrologia e fazer prognósticos a respeito de um futuro quase sempre impreciso. A partir do último quartel do século XVI foram, por isso mesmo, sujeitos a apertada vigilância de censura inquisitorial; esta, se consentia um prognóstico inócuo, já certamente mandava eliminar todo aquele que pudesse criar um espírito de pânico (como a previsão de um dilúvio, por exemplo) ou anunciasse revoltas contra os poderosos; e, no entanto, em rigor, só deviam ser condenadas em termos de ortodoxia religiosa as previsões que colidissem com o livre arbítrio.

Bibliografia:
FERNANDES, Valentim, Reportórios dos Tempos, edição de 1518 e 1563: André de Avelar, Chronographia, Reportórios dos Tempos, Coimbra, 1593.

Artigo originalmente publicado no Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, dir. Luís de Albuquerque, e reproduzido por cortesia do Círculo de Leitores