Companhia de Jesus

Data de publicação
2011
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A Companhia de Jesus foi fundada por Sto. Inácio de Loiola e recebeu aprovação pontifícia em 1540. O grupo inicial que se reuniu à volta do Fundador era formado por seis estudantes da Universidade de Paris entre os quais se contavam o navarro S. Francisco Xavier e o português Simão Rodrigues. A 15 de Agosto de 1534, ainda em Paris, fizeram voto de castidade e de pobreza e prometerem ir em peregrinação a Jerusalém com o objectivo de pregar o Evangelho entre os infiéis. Se não pudessem concretizar essa viagem, colocar-se-iam à disposição do Papa para que os enviasse onde entendesse. Foi o que veio a acontecer, já que a guerra com os turcos impossibilitou a partida de Veneza onde tinham esperado, durante um ano, passagem para a Terra Santa. Eram já dez, todos sacerdotes, quando se reuniram em Roma, em 1538. Deliberaram, então, fundar uma nova ordem religiosa e apresentaram ao papa Paulo III um esboço do seu ideário. O Pontífice aprovou oralmente, a 3 de Setembro de 1539, a Fórmula do Instituto da Companhia de Jesus, a que se seguiu a confirmação, a 27 de Setembro de 1540. A Fórmula, na sua segunda redacção aprovada pelo papa Júlio III em 1550, afirma como objectivos principais da Ordem "a defesa e a propagação da fé e o aperfeiçoamento das almas na vida e na doutrina cristãs". A disponibilidade manifestada pelo grupo fundador perante o Sumo Pontífice ficou consagrada pela introdução de um voto especial de obediência ao Papa. Por esse quarto voto, que acrescentam aos votos de castidade, pobreza e obediência próprios dos religiosos, os jesuítas professos comprometem-se a aceitar as missões que o Papa entender confiar-lhes, em qualquer parte do mundo.

A presença dos jesuítas, em Portugal e nos seus domínios, deve-se à iniciativa de D. João III que solicitou a Inácio de Loiola o envio de sacerdotes para as missões da Índia. Sto. Inácio acedeu ao pedido e mandou dois dos seus primeiros companheiros: Francisco Xavier e Simão Rodrigues, ambos chegados a Portugal em 1540. Xavier partiu logo em 1541 para o Oriente, enquanto Simão Rodrigues permaneceu no Reino, lançando as bases da Província de Portugal. A difusão extraordinariamente rápida em Portugal, graças à generosidade da Coroa e de numerosos benfeitores, foi acompanhada, logo de início, por grande empenho missionário. A 6 de Maio de 1542, S. Francisco Xavier desembarcou em Goa com dois companheiros e, depois de percorrer vastas regiões da Índia, esteve em Malaca e nas Molucas, chegando ao Japão em 1549. Após dez anos de intensa actividade no Oriente, veio a falecer, em 1552, numa ilha do litoral chinês, apenas com 46 anos de idade. A evangelização no Oriente prosseguiu com sucessivas levas de missionários e a diversificação das regiões alcançadas: Macau, em 1565; império do Grão Mogol, em 1579; China, em1583; Pegu (no actual Myanmar) e Bengala, em 1598; Cochinchina, em 1615; Cambodja, em 1616; Tibete, em 1624; Tonquim (no actual Vietname) e Sião (Tailândia), em 1626; e Laos, em 1642. Em África, os jesuítas estavam no Congo, em 1547, e em Angola, em 1560; em 1557, chegaram à Etiópia e, em 1560, penetraram em Moçambique, no Monomotapa; em 1604, iniciaram a missão de Cabo Verde donde passaram à Guiné e Serra Leoa. A primeira expedição ao Brasil, que levava como superior o P. Manuel da Nóbrega, data de 1549.

Contabilizando todas estas expedições, chegamos ao número impressionante de 361, ao longo de 215 anos, sendo 75 no século XVI, 190 no século XVII e 96 no século XVIII, numa média de 16 missionários enviados cada ano. Eram, na sua maioria, portugueses, mas também havia jesuítas italianos, espanhóis, alemães, flamengos e polacos que partiram em grande número para as missões dependentes de Portugal. À medida que a consolidação das estruturas e o número de evangelizadores o permitia, foram-se criando novas províncias ou vice-províncias, cada uma delas com o seu superior próprio: Província de Goa, Província do Malabar, Província do Japão, Vice-Província da China, Província do Brasil e Vice-Província do Maranhão. Juntamente com a Província de Portugal, formavam a denominada Assistência de Portugal que, em 1759, contava 1698 jesuítas, dos quais 789 estavam na Europa e os restantes espalhados pelo mundo.

Desde a sua chegada a Portugal, os jesuítas inseriram-se plenamente na estrutura missionária do Padroado Português. Os jesuítas eram enviados pela Coroa, que assim correspondia ao encargo de primeira responsável pela evangelização, e esperavam das autoridades o apoio necessário para a sua actuação. Foi neste contexto que D. João III, em estreita colaboração com Sto. Inácio, promoveu desde o início a acção evangelizadora da Companhia de Jesus, responsabilizando-a por novos e importantes campos missionários. Neste regime de Padroado, S. Francisco Xavier foi enviado para o Oriente, o P. Manuel da Nóbrega para o Brasil e o Patriarca Nunes Barreto para a Etiópia, sendo estas missões apoiadas generosamente por D. João III. Os religiosos da Companhia de Jesus partilharam espontaneamente a mentalidade da época, segundo a qual o apoio das autoridades civis constituía o caminho mais seguro e eficaz para a cristianização. Ao mesmo tempo, contudo, sempre se dispuseram a ultrapassar sem receio as zonas directamente controladas pela administração portuguesa, tornando-se até exploradores de regiões inóspitas e desconhecidas, como aconteceu com o P. António de Andrade, no Tibete, e o Ir. Bento de Góis, na Ásia Central.

Desde a primeira hora com missões em três continentes, os jesuítas viram-se confrontados com as situações mais díspares que os levaram a empregar uma grande variedade de métodos de evangelização. Na Ásia, ao depararem com civilizações antigas e religiões de grande complexidade, fizeram apelo a uma enorme capacidade de adaptação. Adoptaram os costumes locais e souberam usar os conhecimentos científicos e técnicos aprendidos nos colégios e universidades da Europa para conseguirem a indispensável aceitação por parte das autoridades e população. Serve de exemplo o facto de, na China, os matemáticos, geógrafos, astrónomos e músicos jesuítas terem sido os melhores embaixadores do Evangelho, os que conseguiram abrir caminho até Pequim e os únicos a poderem permanecer em épocas de perseguição.

Os esforços e sucessos iniciais no Extremo Oriente foram postos em causa por problemas políticos, pela rivalidade entre as potências europeias com interesses na região, por diferenças de metodologia com outras ordens religiosas e, finalmente, pela questão dos ritos que significou o encerramento das experiências mais ousadas de adaptação, levadas a cabo na China e na Índia.

Em África e no Brasil, os missionários depararam com populações num grau muito diferente de civilização e tiveram de dar resposta a questões como a antropofagia e a poligamia. Os jesuítas consideraram os índios do Brasil num estado de menoridade social e mental e julgaram que não bastava confiar a sua conversão a uma simples catequese, independentemente de estruturas sociais que a enquadrassem. Por isso, defenderam a necessidade de um domínio político prévio por parte dos portugueses. Esta "sujeição" dos indígenas incluía a repressão eficaz da antropofagia, da poligamia e das guerras inter-tribais e, por outro lado, a concentração dos convertidos em aldeamentos.

A todas as regiões que missionaram, os jesuítas levaram a preocupação pedagógica que os caracterizava. Principalmente no Brasil, fundaram uma rede de colégios, seminários e escolas primárias e oficinais com ensino gratuito, sustentado por propriedades legadas para património dos centros educativos. No campo científico, os missionários da Companhia de Jesus efectuaram observações que vieram enriquecer o conhecimento das regiões que percorreram. Do mesmo modo, a preocupação em aprender as línguas dos povos que evangelizavam levou-os a elaborar gramáticas e dicionários e a publicar obras de catequese e outras nas mais variadas línguas. São ainda hoje de enorme importância para a história das regiões percorridas as cartas e os relatos escritos pelos missionários, constituindo fontes históricas insubstituíveis, dada a grande variedade dos temas abordados.

Em dois séculos de apostolado missionário em territórios do Padroado português, sofreram o martírio inúmeros jesuítas, portugueses e de outras nacionalidades. Entre eles, foi canonizado S. João de Brito, mártir no Maduré (Índia), e vários outros foram beatificados: Inácio de Azevedo e seus 39 companheiros, mortos pela fé a caminho do Brasil; Francisco Pacheco, João Baptista Machado, Diogo de Carvalho, Miguel de Carvalho e Ambrósio Fernandes, mártires no Japão; e António Francisco e Francisco Aranha, mortos em Salcete (Goa).

No reinado de D. José, a expulsão pombalina levou ao encerramento da presença evangelizadora e missionária da Companhia de Jesus nos territórios portugueses. Dominando grande parte do sistema de ensino, vinculados por uma ligação especial a Roma e possuidores de um grande influxo cultural, os jesuítas formavam um corpo facilmente visto como ameaça para um sistema absolutista que ambicionava controlar todos os aspectos da vida social, incluindo a dimensão religiosa. A campanha anti-jesuítica montada por Pombal levou à formulação de uma série de acusações publicitadas em toda a Europa em sucessivas edições da Dedução cronológica e analítica. Entre essas acusações, encontravam-se a resistência dos jesuítas à aplicação do Tratado de Madrid, celebrado entre Portugal e a Espanha, em 1750, para a delimitação de fronteiras na América do Sul e a oposição, no Brasil setentrional, às leis que regulavam a administração das povoações de índios. O corolário destes ataques ocorreu a 3 de Setembro de 1759 com a publicação do decreto de expulsão dos jesuítas de todos os territórios portugueses. Como consequência, cerca de 1100 jesuítas foram acolhidos como exilados nos Estados Pontifícios e a actividade evangelizadora e educativa, como é amplamente reconhecido, sofreu um enorme retrocesso nos espaços ultramarinos sob influência de Portugal.

Bibliografia:
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Autoria da imagem
Manuel Magalhães
Legenda da imagem
Largo do Terreiro de Jesus com vista sobre a igreja dos Jesuítas em Salvador da Bahia, Brasil