Cola

Data de publicação
2009
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Designação corrente da noz de cola, fruto da coleira, árvore originária da África Ocidental. Conhecem-se mais de quarenta espécies desta planta, das quais as mais comuns são a Cola nitida, desde sempre com maior valor comercial, e a Cola acuminata. Nos séculos XVI e XVII, a maior concentração de árvores da cola sob forma espontânea (e, talvez desde o século XIV, também sob a forma cultivada) situava-se numa mancha de floresta tropical húmida cujo núcleo central correspondia à actual Serra Leoa, mas que se estendia pelo que é hoje o território da Libéria, da Costa do Marfim, do Gana e da Nigéria e se prolongava para Sueste, em direcção ao Gabão e a Angola. Também nas ilhas do golfo da Guiné, fazendo provavelmente parte da vegetação original, apareciam exemplares de coleira. A árvore da cola, além das regiões de África onde integra, desde há muito, o habitat natural, divulgou-se depois por outras zonas de clima tropical, um pouco por todo o Mundo.

Em grande número de sociedades da África Ocidental, a cola desempenhou, desde que temos informações até aos nossos dias, funções importantes em cerimónias de carácter mágico-religioso (nomeadamente em ritos de adivinhação) e no relacionamento social (por exemplo, na negociação dos casamentos ou como símbolo de hospitalidade), além, obviamente, das formas particulares de uso quotidiano, amplamente generalizadas entre a população. Tradicionalmente, o fruto é usado como masticatório e o seu carácter estimulante (é rico em cafeína e outros alcalóides) faz com que lhe tenham sido atribuídas múltiplas propriedades, como o alívio da fadiga e o aumento da resistência à sede e à fome, para lá de virtudes terapêuticas e afrodisíacas. Nas zonas islamizadas onde era difícil acesso a outros estimulantes, o uso da noz de cola surgia como uma alternativa à interdição do consumo de bebidas alcoólicas.

O comércio da cola, em particular da espécie Cola nitida, foi, com o do ouro, um dos sectores mais dinâmicos da actividade económica da África Ocidental, animando, pelo menos a partir do século XIII, um activo tráfego caravaneiro que se desenvolvia em direcção ao Norte, ligando a zona da floresta à da savana e atingindo o deserto do Sara. Por outro lado, desde datas que não é fácil precisar, estabelece-se também um lucrativo comércio costeiro, através do qual as nozes de cola circulavam entre a Serra Leoa e os rios do Norte da Senegâmbia, de onde mercadores mandingas, entre outros, as levavam para abastecer os mercados do interior.

Não abundam as informações sobre a intervenção de portugueses nessas redes de trocas e as primeiras referências conhecidas sobre o tráfego de cola por mar só aparecem na segunda metade do século XVI, com Francisco de Andrade e André Álvares de Almada. No entanto, é legítimo pensar que, já muito antes, lançados (ou tangomaos) não só tivessem conhecimento do tráfico como nele participassem directamente. Durante o século XVII, é seguro que mercadores portugueses e luso-africanos aproveitaram as rotas tradicionais do comércio de cabotagem para intervirem, em situação de quase monopólio, no comércio da cola ao longo das costas da Guiné.

Embora o consumo de nozes de cola fosse prática corrente entre muitos dos portugueses que frequentavam o litoral africano ou que habitavam nos arquipélagos de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, o hábito nunca penetrou na Europa, a não ser pontualmente e, sobretudo, com indicações de carácter terapêutico.

BIBLIOGRAFIA:
BROOKS, George E., «Kola Trade and State-building: Upper Guinea Coast and Senegambia, 15th-17th Centuries», Working Paper nº 38, African Studies Center, Boston University, 1980. Idem, Eurafricans in Western Africa, Oxford, James Currey, 2003. FICALHO, Conde de, Plantas úteis da África Portuguesa, 2ª ed. revista, Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1947. LOVEJOY, Paul E., «Kola in the history of West Africa», Cahiers d'Études africaines, vol. 77/78, 1980, pp. 97-134. Idem, "Kola nuts: the 'coffee' of Central Sudan", in Consuming Habits: Drugs in History and Anthropology, Londres/Nova Iorque, Routledge, 2003, pp. 98-120.