Portugal e as Cidades Italianas: Impacto da Expansão Portuguesa (século XVI)

Data de publicação
2011
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Período
Área Geográfica

Com o início do século XVI, começou uma segunda tendência nas relações entre as cidades italianas e Portugal no que respeita o impacto cultural e político das navegações portuguesas. As cortes italianas tentaram adquirir mapas-mundo e relatos de viagens feitos por cosmógrafos e navegadores portugueses e oficialmente produzidos e até certo ponto mantidos em segredo pelo Armazém da Guiné e da Índia, no Palácio Real da Ribeira em Lisboa (no início este era apenas um armazém onde eram guardados os bens que vinham da Guiné e da Índia, mas mais tarde tornou-se uma organização com várias responsabilidades relacionadas com a organização da expansão).

Dos documentos mais famosos deste período, o mais importante é, sem dúvida, o chamado Carta del Cantino (Modena, Biblioteca Estense e Universitaria, C.G.A.2, 1502), um mapa muito elaborado desenhado à mão do Armazém da Guiné e da Índia, comprado em Lisboa por Alberto Cantino, agente do Duque de Ferrara Ercole d'Este.

O planisfério de Cantino é provavelmente uma cópia de luxo dos padrões reais, mapas especializados que existiam nos arquivos e escritórios cartográficos do Armazém da Guiné e da India. Este mapa revelou às cortes italiana, mas também às europeias - por exemplo, o cosmógrafo Martin Walseemüller, que exercia em Saint-Diè de Vosges, é conhecido por ter usado dados do mapa Cantino ou outro mapa muito semelhante, para fazer o seu planisfério de 1507 e a sua "charta marina" de 1516 - uma nova imagem cartográfica da Terra conhecida até então apenas daqueles que frequentavam os ciclos mais poderosos da peninsula Ibérica. O mapa que Cantino trouxe para Ferrara para o Duque Ercole D'Este transmitia toda a informação disponível resultante das viagens feitas por exploradores ibéricos, assim como os locais que ainda não tinham sido descobertos.

Em 1497, Vasco da Gama partiu para a Indía e no ano seguinte, Colombo começou a sua terceira viagem para o Ocidente, explorando as ilhas e costas daquilo que presumiu ser a Ásia. Na mesma altura, os Ingleses exploravam a zona mais a norte do Atlântico, com a viagem de John Cabot à Terra Nova, onde os marinheiros portugueses (os irmãos Corte-Real) tinham chegado em 1501-1502. No seguimento das explorações espanholas de Alonso de Hojeda e de Martin Alonso Pinzon, os portugueses chegaram à América do Sul, com as viagens de Pedro Álvares Cabral, em 1500, e de Gonçalo Coelho, em 1501-2. Em setembro de 1502, Diogo Dias regressou da sua expedição ao Mar Vermelho, enquanto João de Nova trouxe notícias das ilhas de Santa Helena e Ascensão, no Atlântico Sul. Estas eram as informações finais do planisfério Cantino.

O mapa de Cantino mostrava efectivamente dados relativos às viagens ultramarinas ao Atlantico Ocidental (a Terra Nova a Norte, com bandeiras portuguesas, as Antilhas, com bandeiras espanholas e uma extensa Terra de Vera Cruz, recentemente descoberta por uma expedição portuguesa liderada por Pedro Álvares Cabral em 1500, a Sul) e do Oceano Índico, até ao sub-continente Indiano, através da circumnavegação de África descrita de um modo extremamente preciso. Pela primeira vez na história da cartografia ocidental, é atribuída à India a forma de uma massa de terra triangular no seio do Oceano Índico. É, simultaneamente, importante sublinhar que a cosmografia clássica Ptolomeica continuava a funcionar como a base para as áreas mais distantes ou menos bem conhecidas (por exemplo, o Golfo Pérsico e as fronteiras ocidentais da écumena eurasiana, a chamada península de Catigara).

A precisão com a qual os locais estavam localizados e as suas riquezas descritas transformaram o planisfério numa enciclopédia de estratégias geopolíticas e comerciais que se tornaram preciosas para as cortes italianas.

A criação do planisfério de Cantino integra-se na situação geopolítica que se tinha vindo a desenvolver em Portugal desde meados do século XV, no contexto das descobertas marítimas no Atlântico com o objectivo de chegar ao Oceano Índico e ao Sul da Ásia. Ao representar claramente o chamado Meridiano de Tordesilhas (em 1494, o Tratado de Tordesilhas estabeleceu um meridiano como fronteira no meio do oceano, dividindo assim a Terra em dois hemisférios - um sob influência portuguesa, a oriente, outro sob influência espanhola, a ocidente; a localização do meridiano e do anti-meridiano não era nem certa nem pacífica) o mapa Cantino permitia, pela primeira vez, às cortes italianas terem acesso a uma representação visual da jurisdição complexa do Atlântico - que era objecto de uma disputa apaixonada entre portugueses e espanhóis.

Cerca de vinte anos mais tarde, entre 1517 e 1538, em Veneza, o estudioso Alessandro Zorzi preparava uma coleção em quatro volumes sobre viagens marítimas, coligindo fragmentos de textos impressos e manuscritos, assim como de notas, desenhos e esboços cartográficos. O primeiro volume contém muitos documentos e novos mapas relacionados com a Ásia e com as viagens portuguesas no Oceano Índico. O segundo discurte o Novo Mundo, sublinhando as expedições de Colombo às Antilhas, as viagens de Vespúcio, a conquista do México, e a descoberta do Estreito de Magalhães. O terceiro incide sobre as regiões da Europa do Norte e da Europa Ocidental e o quarto articula informação de fontes e mapas sobre o Nordeste de África, Calecute, a costa do Malabar, e as ilhas Molucas. Embora tivessem sido pensados para serem publicados, os volumes nunca viram a luz do dia.

Caberia a Giovanni Battista Ramusio produzir com sucesso uma narrativa sobre viagens acompanhada de mapas. Os três volumes do seu Navigazioni e viaggi de 1550-59 não só traduziam e publicavam descrições das viagens portuguesas, como também davam voz aos navegadores portugueses. Ramusio atribuía aos portugueses grande competência em cosmografia porque tinham ajudado a criar uma nova imagem do mundo - uma imagem que repesentava uma combinação de geografia antiga, experiências modernas, cosmografia matemática, e cartografia náutica. Reconheceu a habilidade dos capitães portugueses em confrontarem tradição e experiência, e entrevistou os navegadores e os nobres portugueses que passaram por Veneza com o intuito de comparar as suas viagens com a dos antigos.

Entre a cosmografia portuguesa que circulavam por Itália, dois exemplos notáveis, embora hoje em dia pouco conhecidos, são os espantosos planisférios náuticos desenhados respectivamente pelos cosmógrafos portugueses Lopo Homem em 1554 e Bartolomeu Velho em 1561. Ambos os mapas pertenciam ao Grande Duque da Toscânia, Cosimo I (1519-1574) e encontram-se hoje em dia no Museu para a História das Ciências de Florença. Cosimo I - ele próprio autor de estudos cosmográficos - pediu, a partir de 1563, ao monge cosmógrafo e matemático Egnazio Danti (1536-1586) que produzisse mapas geográficos de todos os territórios então conhecidos para que fosse exposto numa Sala dos Mapas especialmente construída para este fim por Giorgio Vasari no Palazzo Vecchio, em Florença. Os mapas de Lopo Homem e de Bartolomeu Velho foram usados por Danti e influenciaram as suas representações dos Novos Mundos e da Ásia, na Sala dos Mapas de Cosimo I, assim como outros mapas e cosmografias italianos coevos, tais como os que foram desenhados em Veneza por Jacopo Gastaldi entre 1530 e 1560.

Conclusões As notas de Maffeo Gherardo sobre a encomenda feita pela corte portuguesa de uma cópia do mappamundi de Fra Mauro; as memórias de Francesco Castellani descrevendo a visita dos embaixadores portugueses a Florença e Veneza; os registos de Cambini que referem a encomenda feito pelo Bispo do Algarve de um códice da Geografia de Ptomoleu assim como as viagens de Bartolomeu Dias e Gil Eanes; os mapas e planisférios de Andrea Bianco, Fra Mauro e Henricus Martellus Germanus; os documentos de Piero Vaglienti, Alessandro Zorzi, and Giovanni Battista Ramusio - todos eles constituem provas concretas de circulação de conhecimento cosmográfico em Portugal, Florença e Veneza durante o Renascimento. Os principais agentes das redes de comércio e conhecimento que ligavam o Mediterrâneo e o Atlântico eram as companhias mercantis de Portugal, Florença, Veneza e Génova; os embaixadores portugueses, florentinos e venezianos; e os humanistas instalados em Florença e Veneza. Todos eles contribuíram para a construção de uma nova visão do Atlântico. Este deixou de ser percepcionado como uma fronteira física e metafórica do antigo mundo não habitado e tornou-se um espaço navegável em todas as direcções, oferendendo a oportunidade de formar tanto uma nova rota para a Índia como para os chamados Novos Mundos e também para o controlo dos mares.

A identificação através de documentos de agentes específicos - neste caso portugueses, florentinos e Venezianos - sublinha a necessidade e a oportunidade de passar além das fronteiras da história nacional: foi o Mediterrâneo, com a sua longa tradição de comércio, que foi um dos principais agentes na formação do mundo Atlântico.

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Autoria da imagem
Alexandra Pelúcia
Legenda da imagem
Vista de Florença, Itália