Rui Freire de Andrade

Data de publicação
2012
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Rui Freire de Andrade nasceu em Beja na década de 1590, filho de João Freire de Andrade, que serviu como Chanceler da Índia na primeira década do século XVII. Nada se sabe sobre os primeiros anos da vida de Rui Freire.

A sua primeira viagem para a Índia ocorreu em 1607, na esquadra de D. Jerónimo Coutinho. Chegado ao subcontinente serviu várias vezes nas armadas do Norte e do Malabar. Em 1613, foi nomeado capitão de Damão, fortaleza que se encontrava sob cerco do Rajá de Sarceta. Rui Freire rapidamente se destacou em combate e as forças indianas foram obrigadas a retirar. No ano seguinte foi nomeado para Chaul, também sob cerco, novamente levantado pouco tempo após a chegada do capitão. Nesse mesmo ano, ainda ali o encontrou a armada do vice-rei D. Jerónimo de Azevedo, que ia dar combate aos ingleses em Surrate. Rui Freire tentou participar na expedição, mas a sua colaboração foi recusada pelo vice-rei. Antes de regressar ao Reino, em 1617, ainda comandou a armada do Norte.

Face à situação portuguesa cada vez mais grave no Estreito de Ormuz, devido às ambições do xá safávida, Abbas I, e à presença comercial inglesa nas costas persas, Filipe III ordenou o envio de uma grande armada para Ormuz. O comando da expedição foi entregue a Rui Freire de Andrade, tendo como objectivo expulsar os ingleses daquelas águas e reafirmar a posição portuguesa no Estreito. A esquadra partiu de Lisboa a 1 de Abril de 1619 e após várias atribulações ainda no Atlântico, entre as quais, o bombardeamento de navios castelhanos que não se haviam identificado convenientemente e o combate com um navio holandês no Cabo da Boa Esperança, chegou a Ormuz a 20 de Junho do ano seguinte. Dali, Rui Freire de Andrade partiu no comando da armada para Jasques para cumprir a primeira parte dos seus objectivos, dar caça aos navios ingleses. O confronto saldou-se por uma vitória táctica dos ingleses, visto os portugueses não terem conseguido impedir as acções comerciais britânicas na costa persa e muito menos afastá-los definitivamente do Estreito.

Falhado o primeiro objectivo, Rui Freire de Andrade iniciou os preparativos para o segundo, fortalecer a posição de portuguesa no Estreito, construindo um forte na ilha de Queixome, vizinha à ilha de Djarûn. Apesar da oposição do capitão de Ormuz e do governador do Estado Português da Índia, Fernão de Albuquerque, receosos da reacção persa, Rui Freire levou o seu plano adiante e partiu para Queixome, a 7 de Maio de 1621. Após desbaratar as forças persas que defendiam a ilha, deu inicio à construção do forte. A reacção safávida não se fez esperar e logo passaram para a ilha grandes quantidades de soldados persas. Enquanto os portugueses dominaram as águas em torno do forte a sua posição esteve assegurada. Mas, em princípios de 1622, a chegada dos navios ingleses, os quais se coligaram com as autoridades safávidas, veio alterar esta situação. Aos portugueses, cercados por terra e por mar, não restou outra opção senão renderem-se, sendo os soldados lusos desarmados e transferidos para Ormuz, enquanto Rui Freire de Andrade ficava prisioneiro dos ingleses.

Enquanto a aliança anglo-persa colocava cerco a Ormuz, Rui Freire conseguiu escapar aos seus captores perto da costa indiana. Aí conseguiu reunir alguns navios e partir para Mascate, onde logo recebeu a notícia da perda de Ormuz. Juntamente com Constantino de Sá de Noronha, que fora enviado de Goa com reforços, e após darem ordens para não se abandonar as restantes posições portuguesas no Estreito, Rui Freire partiu para Goa, onde decorriam várias devassas para avaliar a sua participação na perda de Ormuz. Porém com a chegada do novo vice-rei, D.Francisco da Gama, Rui Freire foi rapidamente inocentado e enviado de volta para o Estreito com o cargo de capitão-geral.

Chegado ao estreito em 1623, Rui Freire apressou-se a reafirmar a posição portuguesa. À falta de Ormuz, a qual se tentou infrutiferamente retomar nos anos seguintes, Mascate tornou-se o novo centro luso no Estreito. Nos anos de 1623 e 1624, o capitão-geral empreendeu uma série de campanhas nas costas da Arábia, tomando várias praças como Soar, Julfar, entre outras, expulsando os persas da margem arábica do Estreito. Ainda em 1624, enviou uma expedição, comandada por D. Gonçalo da Silveira, a Baçorá para auxiliar o governante local, vassalo dos otomanos, na guerra contra os persas, conseguindo restabelecer as relações comerciais com aquele importante empório comercial asiático.

Em 1625 deu-se nas águas do Estreito o confronto entre a armada de alto-bordo lusa, capitaneada por D. Nuno Alvares Botelho e auxiliado por Rui Freire e as forças anglo-holandesas. Embora a batalha, dividida em três momentos, se saldasse por um empate, os norte-europeus perceberam que a partir daquele momento as viagens para o Estreito seriam muito mais difíceis devido à oposição lusa. No ano seguinte, apesar dos muitos reforços enviados para o Estreito, devido ao receio de um possível ataque a Mascate, não ocorreu qualquer confronto.

Ultrapassada a ameaça norte-europeia e com a sua posição bastante reforçada, entre 1627 e 1629, o capitão-geral reiniciou as acções para reafirmar a posição portuguesa no Golfo. Assim estabeleceu uma aliança com o governante de Catifa e intentou, sem sucesso, retomar o Bahrein, além de ordenar vários ataques às costas persas. A morte de Abbas I, em 1629, e a necessidade do seu sucessor, Safi I, reafirmar a sua contestada posição levaram as autoridades safávida a pedir uma trégua semestral, com os portugueses, a repetir todos os anos. Em troca ofereceram a abertura e metade dos rendimentos da alfândega de um qualquer porto à escolha do capitão-geral. Rui Freire aceitou o acordo, escolhendo o porto do Congo (Bandar Kung).

Entretanto, em finais de 1629, iniciava-se em Goa o governo do novo vice-rei, D. Miguel de Noronha, conde de Linhares. Este percebera as possibilidades abertas pela trégua no Estreito para utilizar noutros espaços o grande contingente militar ali estacionado e o seu carismático líder. Assim, foi ordenada a vinda para Goa de Rui Freire de Andrade para participar, juntamente com o vedor-geral da Fazenda, Miguel Pinheiro Ravasco, numa expedição de fiscalização militar e financeira às fortalezas da Província do Norte. No entanto, a morte do vedor, logo no início da jornada, serviu de desculpa ao capitão-geral para regressar ao Estreito, sem a autorização do vice-rei. A perda de Mombaça, em 1631, foi um novo pretexto para o conde de Linhares tentar utilizar os recursos militares do Estreito, discutindo-se mesmo em Conselho de Estado que o grosso da expedição para a recuperação daquela praça deveria ser constituído por tropas do Estreito. No entanto, a hábil utilização do argumento da ameaça norte-europeia sobre Mascate, por parte do capitão-geral, levou ao abandono desse plano, sendo a malograda expedição recrutada sobretudo na Índia.

Desde 1631 que o estado de saúde de Rui Freire de Andrade tendera a deteriorar-se, até culminar num surto de disenteria que lhe colheu a vida em Setembro de 1633. Foi sepultado sob uma lápide, sem qualquer inscrição, na igreja dos Agostinhos em Mascate. Não se sabe se esta simplicidade tumular derivou de um pedido do próprio num acto de despojamento total na morte, ou se foi planeado pelos seus inimigos em Mascate no intuito de apagar qualquer memória do capitão-geral.

Bibliografia:
- Boxer, Charles, “Anglo-Portuguese Rivalry in the Persian Gulf (1615 – 1635)”, in Portuguese Conquest and Commerce in Southern Asia (1500-1750), Variorum Reprints, Londres, 1985; - Comentários do Grande Capitão Rui Freire de Andrade, (ed,) José Gervásio Leite, Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1940; - Ferreira, João Luís, Entre Duas Margens. Os Portugueses no Golfo Pérsico (1622-1653), Dissertação de Mestrado apresentada na FCSH-UNL, 2011; - Leite, José Gervásio, Rui Freire de Andrada, Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1940