Manuel Severim de Faria (Lisboa, 1583 - Évora, 1655)

Data de publicação
2009
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Período
Área Geográfica
Data de nascimento controversa entre os vários biógrafos uma vez Frei Cristóvão de Lisboa, seu irmão, terá nascido no mesmo ano. Apenas SILVA (2003) avança com a data de nascimento em 1584. Tendo sido educado e vivido sob a monarquia filipina (1580-1640), foi notável figura da Igreja, insigne erudito tendo deixado inúmeros textos de carácter religioso e laico. Muitos destes constituem documentos incontornáveis para o conhecimento da época, quer pela reflexão política neles contida quer pelo testemunho directo que constituem sobre aspectos culturais, políticos e do quotidiano da vida portuguesa.

Com uma ascendência ilustre, foi junto de seu tio materno Baltasar de Faria Severim, cónego e chantre na Sé de Évora, que recebeu educação e se formou. Frequentou a universidade jesuítica de Évora onde obteve o mestrado em Artes e o doutoramento em Teologia (1606). Por renúncia de seu tio, é nomeado cónego da Sé de Évora (1608) e mais tarde toma posse do Chantrado (1609). Durante a sua vida prossegue os estudos e investigação em Teologia, História, Política e Geografia, Genealogia; evidencia gosto particular pela Arqueologia, Numismática, Bibliofilia. Encarnando bem o espírito antiquário, reúne antiguidades gregas, romanas ou visigóticas, sejam vasos, estátuas, colunas, moedas ou medalhas, muitas delas compradas. Segundo VILHENA BARBOSA, "Uma colecção de arqueologia nacional…o segundo museu de que temos notícia foi fundado na cidade de Évora nos começos do séc. XVII" (SILVA 2003 : 15). O interesse de coleccionador pela Numismática, está assim resumido em Sobre as Moedas de Portugal: "… por quanto nas imagens das moedas, e suas inscrições se conserva a memória dos tempos, mais que em nenhum outro monumento …" (FARIA 2003 : 135). Reúne também livros e documentos manuscritos entre os quais o manuscrito original da Crónica de D. Afonso Henriques de André de Resende (MACHADO 1752 : 369), obras do Infante D. Pedro filho de D. João I, obras em japonês do dominicano espanhol Frei Luís de Granada, papiros do Egipto e livros chineses com preciosas encadernações de seda com brochos, certamente dos primeiros textos chineses a chegar à Europa. A livraria assim constituída, que franqueava a outros eruditos, torna-se famosa não pela quantidade mas pela qualidade. Após a sua morte, perdeu-se o rasto às antiguidades enquanto a biblioteca foi incorporada na biblioteca do Conde Vimieiro a quem o ligavam laços de família, biblioteca que foi uma das mais importantes do séc. XVII e seria parcialmente consumida com o incêndio subsequente ao Terramoto de 1755. O gosto de Severim de Faria pelas antiqualhas, o seu conhecimento vasto e erudito celebrado tanto por autores seus contemporâneos como Gregório de Almeida, Luís dos Anjos, João Franco Barreto, Frei António Brandão, Frei Francisco Brandão, Frei Bernardo de Brito, Jorge Cardoso, D. Rodrigo da Cunha, Manuel de Galhegos, António de Macedo, António de Sousa de Macedo, Francisco Manuel de Melo, Manuel de Faria e Sousa entre outros, como por autores posteriores, conforme abundantemente testemunha BARBOSA MACHADO (1752).

Espírito aberto e interrogador, consultou arquivos, cartórios e documentos, manteve contacto com eruditos, missionários e viajantes, mantendo-se informado e actualizado sem sair de Évora. A correspondência, por exemplo, que trocou com o seu irmão Frei Cristóvão de Lisboa, franciscano e missionário no Maranhão, cuja obra manuscrita Historia dos animaes e arvores do Maranhão, escrita entre 1624 e 1627, constitui a primeira descrição da fauna e flora brasilianas, regista esse contacto indirecto com o mundo. As cartas trazem-lhe as novidades de uma natureza desconhecida mas também de outros povos, usos e costumes e como os Portugueses a eles se adaptavam. Embora Severim de Faria não fosse dado a viajar, em Sobre a Peregrinação reconhece algumas vantagens que descreve de forma concisa: "… só por razão de alcançar as ciências, e artes necessárias ao comum, e particular, se deve sair da pátria …" acrescentando como é inútil ir para longe quando ao pé da porta se acha o que se procura, em concreto as universidades: "… e que sendo o lugar, em que as letras se professem, perto, se escusava buscar o apartado, e longe" e mais explicitamente ainda "Pelo que havendo na Província de cada um escolas, onde com conhecido louvor se leiam, e ensinem as ciências, não é necessário ir buscá-las com peregrinação a outras partes". Abre uma excepção para a arte da guerra, explicitando "Por tanto os que houverem de servir a República na Milícia, e quiserem alcançar nela a reputação, devem de a ir exercitar, e aprender nos exércitos, seguindo-os fora da pátria, quando nela os não houver, ou embarcando-se muitas vezes nas Galés do mar Mediterrâneo, e nas Armadas do Oceano, e Índia Oriental, que são as escolas em que hoje floresce esta prática" (FARIA 2003 : 220-221). Vai, contudo, contrapondo a necessidade indiscutível de conhecer bem o que se pretende administrar porque "mal se pode governar aquilo que não se conhece" (id. ibidem, p. 222). Foram poucas as viagens que Severim de Faria concretizou: em 1604 ao grande Santuário de Guadalupe (Espanha), em 1609 a Miranda do Douro e em 1625 a Maçãs de Dona Maria (Tomar) das quais resultaram relatos muito vivos e informativos para o conhecimento da realidade portuguesa, verdadeiros diários de viagem. BARBOSA MACHADO dá notícia dos abundantes escritos de Severim de Faria, repertório recentemente actualizado (FARIA 1999). Entre os impressos, devem destacar-se os Discursos vários políticos (Évora : Manoel Carvalho Impressor da Universidade, 1624) ou as Noticias de Portugal (Lisboa : na Officina Crasbeeck, 1655). Sobre os Discursos…, sete peças no total incluindo importantes textos biográficos sobre João de Barros, Luís de Camões e Diogo do Couto, tem cabimento destacar, pelo interesse político, Do muito que importará para a conservação, e aumento da Monarquia de Hespanha, assistir sua Magestade com sua Corte em Lisboa (Discurso Primeiro) ao longo do qual desenvolve argumentação original, por vezes ingénua ainda que plausível para justificar a mudança da capital de Madrid para Lisboa alegando "… que estando elRey no sertão, se impossibilita a acodir ás cousas do mar como a necessidade o requere …" invocando múltiplos argumentos e comparações. O discurso sobre a língua portuguesa, no qual se enumeram as suas múltiplas virtudes, ou o discurso sobre o exercício da caça, repleto de apontamentos sobre o papel deste na educação, ou ainda, o discurso sobre a origem das vestes sacerdotais, muito informativo, constituem textos num estilo directo, envolvente e, nesse sentido, modernos apesar de recheados de erudição. Importa sublinhar a escolha das figuras de primeira plana que biografou inquestionavelmente associadas à história de Portugal autónoma e independente no contexto ibérico. As Noticias de Portugal são um misto de erudição e de análise e propostas para a resolução de candentes problemas nacionais. Recorrendo ao conhecimento da história e revelando erudição, mas como já acontecera com os Discursos Vários Políticos, a leitura das Notícias prende desde o princípio. Compostas por oito discursos e alguns elogios, as Noticias abrangem temas tão diversos quanto a situação dos meios indispensáveis para sobrevivência de Portugal, a organização da milícia, a história e origem das famílias nobres, a numismática, as universidades de Espanha, a propagação do Evangelho, a causa dos naufrágios da carreira da Índia, ou sobre a peregrinação, isto é, as viagens. Os textos laicos de Severim de Faria logram conseguir um equilíbrio total entre a erudição, o carácter educacional e filosófico e a simples crónica o que os torna atraentes e, de alguma maneira, intemporais. Do ponto de vista do curso histórico, Severim de Faria é um último representante de um certo espírito renascentista enquanto já denota características que marcarão os anos de setecentos: a curiosidade comprovada pelos factos, a partilha do conhecimento com os outros, a capacidade de ouvir e contrapor. Um percurso que se fez sob a égide dos Filipes, domínio com o qual aparenta concordar, a fazer fé na proposta que adiantou para a reorganização do Império, juízo que, de imediato, se pode questionar tendo presente a forma insofismável como apoiou a subida ao poder de D. João IV, em 1640.

Bibliografia:
FARIA, Manuel Severim de, Discursos Vários Políticos. Introdução, actualização e notas de Maria Leonor Soares Albergaria Vieira. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999. LV, 205 p. FARIA, Manuel Severim de, Notícias de Portugal. Introdução, actualização e notas de Francisco António Lourenço Vaz. Lisboa : Edições Colibri, 2003. XXVIII, 316, [1] p. MACHADO, Diogo Barbosa, Bibliotheca Lusitana Histórica, Critica, e Cronológica. Lisboa : Na Officina de Ignacio Rodrigues, 1741-1759. 4 v. (v. 3, 1752, p. 368-374). SERRÃO, Joaquim Veríssimo, Viagens em Portugal de Manuel Severim de Faria: 1604-1609-1625. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1974. 155 p., [3] mapas desd. (Subsídios para a História Portuguesa; 12). SILVA, Joaquim Palminha, Manuel Severim de Faria, o mais douto português do seu tempo. Ensaio biográfico. Évora: A Defesa, 2003. 61, [2] p. SOUSA, Luís Filipe Marques de, "Frei Cristóvão de Lisboa e a sua correspondência com Manuel Severim de Faria, seu irmão". In Actas. Congresso de História no IV Centenário do Seminário de Évora, 1994. Évora: Instituto Superior de Teologia, 1994. 2 v. (v. 2, p. 127-141).