António Bocarro (1594-1642)

Data de publicação
2010
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Escritor, cronista geral e alto funcionário do Estado da Índia, guarda-mor da Torre do Tombo de Goa (1631), António Bocarro nasceu em Abrantes ou em Lisboa, em 1594 e era filho de Fernão Bocarro, médico, na cidade de Lisboa e de Isabel Nunes, cristãos-novos. Passou a infância na cidade de Abrantes, recebeu o baptismo e uma educação de acordo com os cânones da religião cristã, como era usual no seio destas famílias cripto-judaicas. Por volta de 1610, sob influência do seu irmão mais velho, Manuel Bocarro Francês, médico, matemático e astrólogo, converteu-se secretamente ao judaísmo, quando estudava no Colégio de Santo Antão, em Lisboa. Em Abril de 1615, António Bocarro partiu para a Índia, em grande parte, atraído pela existência de comunidades de judeus ortodoxos nestas paragens. Quando chegou ao Oriente, prestou serviço em diversas armadas. Em Goa inteirou-se da presença de seguidores do judaísmo ortodoxo em Cochim, pelo que congregou todos os esforços para obter uma colocação como soldado de defesa na fortaleza desta praça, tendo provavelmente aí fixado residência, por volta de 1622, no intuito de os conhecer mais de perto e entrar em contacto com os membros dessa comunidade. Apesar da sua persistência, Levi, o rabi, temendo que António Bocarro vacilasse nas suas convicções religiosas e retomasse a fé cristã, não aceitou a sua circuncisão e nem sequer o seu ingresso no judaísmo. Um leigo, Samuel Castiel foi o seu mentor e intérprete oficial para os contactos com o rajá de Cochim. Por volta de 1621 ou 1622, após a leitura da obra de Frei Luís de Granada, Symbolo de la Fe, começou a questionar a religião judaica e a sentir-se atraído pelo Cristianismo, que acabou por retomar. Depois de se ter confessado ao Padre Sebastião Dias, membro da Companhia de Jesus, Bocarro foi absolvido e readmitido na fé católica. Foi então aconselhado pelo referido jesuíta a confessar estas vacilações voluntariamente à Inquisição de Goa, em Fevereiro de 1624, tendo denunciado os pais e outros familiares à excepção do seu irmão Francisco, que viera com ele para a Índia e com quem chegou a compartilhar a mesma casa. Acabou por ser libertado e todos aqueles que Bocarro denunciou à Inquisição de Goa conseguiram escapar ilesos ao Santo Ofício, no reino, pois provavelmente ele próprio os avisou atempadamente, por carta, antes da denúncia em confissão. Foi preso pela Inquisição em Cochim tendo escapado da fogueira pelas delações relativas aos parentes e amigos cripto-judeus. Em 1624, António Bocarro contraiu matrimónio com Isabel Vieira, continuando a prestar serviço, agora como casado e, entre 1626 e 1632, em diversas armadas, como soldado. Em 9 de Maio de 1631, foi nomeado para o cargo de cronista oficial e de guarda-mor da Torre do Tombo de Goa, que se encontrava vago desde a morte de Diogo do Couto, em 1616. Ocupou-o até à morte, em 1642 ou 1643, e o seu desempenho como correspondeu às expectativas do vice-rei D. Miguel de Noronha, que manifestou o agrado pela proficiência de Bocarro num despacho enviado ao rei, em 23 de Fevereiro de 1635, nomeadamente na descrição das fortalezas existentes no Estado da Índia. Mas, como tinha cinco filhos e o seu vencimento era exíguo, solicitou que lhe fosse concedido também o cargo de corretor-mor da Alfândega de Goa, que obteve, em 1638, por um período de três anos, para o deixar em dote para quem casasse com uma das filhas com a anuência e o agrado do vice-rei. Cinco anos mais tarde, em Março de 1643, o seu pedido foi atendido pois a Coroa consignou o cargo de secretário das Alfândegas de Mascate a quem contraísse matrimónio com uma das filhas de António Bocarro. A pedido da viúva, Isabel Vieira, em 22 de Agosto desse mesmo ano, o vice-rei D.João de Menezes (1640-1645), conde de Aveiras, concedeu a mercê do cargo de guarda-mor da Torre do Tombo e cronista do Estado da Índia para quem casasse com a filha mais velha de António Bocarro. Enquanto cronista oficial do Estado da Índia e guarda-mor da Torre do Tombo de Goa, Bocarro, escreveu algumas obras mas encontram-se publicadas apenas duas. Deu continuidade às Décadas de Diogo do Couto, tendo sido o autor da Década XIII, que abrange o período correspondente ao vice-reinado de D. Jerónimo de Azevedo (1612-1617) até à chegada do seu sucessor, D.Francisco Coutinho, conde de Redondo. Entre a última Década de Diogo do Couto e a congénere de Bocarro medeiam doze anos embora alguns dos factos não se articulem com as informações veiculadas na obra do antecessor. A Década XIII contém um vasto manancial informativo e abrange uma considerável vastidão geográfica, constituindo um minucioso inventário do império português do Oriente, nos começos do século XVII. Bocarro pretendeu dar uma visão de conjunto sobre tudo o que ia sucedendo no Estado da Índia, num determinado momento, recuando até ao ano de 1590, em particular, à época do segundo mandato de Rui Lourenço de Távora (1609-1612), referindo acontecimentos posteriores ao ano de 1617 pelo que a sua obra abrange cerca de três décadas. Na qualidade de cronista, não se restringiu a um mero inventário dos factos procurando o encadeamento lógico dos acontecimentos, obediência a critérios rigorosos revelando sagaz espírito crítico, preocupação da imparcialidade, não hesitando em denunciar a corrupção, falta de carácter, a ausência de princípios, a sobreposição de interesses, a indisciplina e as traições dos portugueses no Estado da Índia. À semelhança de Diogo do Couto, defendeu o primado da verdade histórica, na qualidade de testemunha presencial dos factos, não escondendo o declínio e as misérias dos portugueses na Índia, contrapondo-se a João de Barros, que seguiu muito de perto o modelo estrutural veiculado na obra de Tito Lívio, não se compadecendo com a divulgação de realidades que pudessem ensombrar o prestígio luso. Bocarro, como frequentou o Colégio de Santo Antão, também era versado em filosofia escolástica, conhecia os autores clássicos e dominava o Latim, mas a realidade que descreveu na Década XIII refere-se a um outro contexto histórico, aos anos 1612-1617, remontando a Filipe II de Portugal e com particular destaque para o agudizar da contestação dos Habsburgos, no reinado de Filipe III de Portugal, a quem dedica a obra. O título de Década XIII não foi atribuído pelo autor e à data da sua conclusão, em 1635, nem sequer se encontrava ainda numerada consoante revela a Epístola Dedicatória do tomo 2, uma vez que a Década XII de Diogo do Couto apenas saiu dos prelos, em 1645, pelo que essa numeração foi atribuída posteriormente numa perspectiva de dar continuidade à obra do seu antecessor. Alguns eruditos como Joaquim José Ferreira Gordo, João Franco Barreto e, mais recentemente, António José Saraiva e Óscar Lopes defenderam a ideia de que António Bocarro escreveu a Década XIII e a Década XIV, embora tudo leve a crer que se trate da mesma obra mas que se encontra divida em dois tomos e que o autor intitulou o tomo I, Década Primeira e o segundo volume Tomo 2 da Primeira Década. Em 1876, foi dada à estampa a Década XIII, devido a uma iniciativa da Real Academia das Ciências de Lisboa, tendo o título sido subscrito por Bulhão Pato, em edição única e baseada em três manuscritos. António Bocarro foi ainda o autor do Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades e Povoaçoens do Estado da Índia Oriental… (1635). Esta obra foi elaborada a mando de Filipe III, em 1632, que solicitou a sua execução ao vice-rei D. Miguel de Noronha, conde de Linhares, que, em resposta, incumbiu Bocarro desta tarefa a 2 de Janeiro de 1633. O vice-rei assegurou que o códice seria remetido para a Coroa na monção seguinte, entre Dezembro e meados de Março mas, em 24 de Dezembro de 1634, o rei instava ansiosamente pelo envio do manuscrito, o que se concretizou, a 17 de Fevereiro de1635, como revela a parte inicial da dedicatória que lhe foi dirigida. O códice vinha acompanhado por cinquenta e duas plantas de fortalezas e cidades, desenhadas por Pedro Barreto de Resende, dotadas de uma atraente policromia e de elevado interesse sob o ponto de vista iconográfico e histórico, embora o texto seja da autoria de António Bocarro, que lhe faz uma vaga menção na carta dedicatória, mas sem identificar o seu nome. Esta obra, que se insere num género largamente divulgado a partir do século XVI, que conhece o seu apogeu na década de trinta do século XVII, encontra-se integrada na cartografia do Estado da Índia em que a representação das cidades e fortalezas respeitante à ocupação de posições costeiras se reveste de grande importância do ponto de vista estratégico para o controlo das comunicações marítimas no quadro do Império Português do Oriente. O autor revela uma notável capacidade no que respeita à compreensão de questões de natureza técnico-militar que, por sua vez, explicam os factos e condicionam o ordenamento espacial. Bocarro deixou ainda em manuscrito Da Reforma do Estado da Índia, a que faz referência a listagem de Diogo Barbosa Machado, na Biblioteca Lusitana, mencionado pelo Padre Francisco da Cruz como existente no espólio da biblioteca de Manuel Severim de Faria, chantre de Évora, que passou a pertencer ao conde de Vimieiro e que seguiu para o reino em 10 de Março de 1636. Bocarro escreveu ainda a Cronica dos Feitos de Sancho de Vasconselos nas partes do Sul, capitão de Amboíno (1571-1591), assim como o Livro dos Feitos de Gonçalo Pereira, que se destacou pelo desempenho enquanto capitão-mor do mar, nas Molucas, em 1573, que se conserva igualmente na biblioteca de Manuel Severim de Faria. Na secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa, encontra-se um manuscrito intitulado História de Maluco no tempo de Gonçalo Pereira Marramaque e Sancho de Vasconselos no Sul, o códice nº 474, que tudo leva a crer que de trata da junção do Livro dos Feitos de Gonçalo Pereira com a Crónica dos Feitos de Sancho de Vasconselos nas partes do Sul.

Bibliografia:
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