ilha de Socotorá

Data de publicação
2009
Categorias
Período
Área Geográfica
Socotorá (Soqotra, Suqutra), ilha do Oceano Índico ocidental situada à entrada do Golfo de Aden (Iémen), em proximidade ao Cabo Guardafui (Somália). A ilha é, com uma superfície de cerca de 3580 km² e uma população que hoje ronda os 40 mil habitantes, a maior da região. Conhecida no Ocidente desde a Antiguidade Clássica e cristianizada ainda durante a Antiguidade Tardia, Socotorá desde cedo atraiu as atenções dos portugueses. Terá sido tocada, em Março ou Abril de 1503, por Vicente Sodré antes do seu naufrágio nas ilhas de Curia Muria, e depois novamente abordada nos finais de 1503 ou inícios de 1504 por Diogo Fernandes Piteira, que informou directamente D. Manuel. Este decidiu mandar conquistar e fortificar a ilha, por considerá-la estrategicamente situada para bloquear o estreito de Bab-el-Mandeb e por constituir um foco potencial de cristianização no Oriente. A conquista portuguesa de Suq, lugar principal de Socotorá ocupado desde 1481 pelos Banu Afrar, família reinante de Caxem (Kishn) no país de Mahra (actual Hadramaute, Iémen oriental), foi levada a cabo em Abril de 1507 sob o comando conjunto de Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque. A guarnição, que ficou a cargo de D. Afonso de Noronha, não logrou no entanto atrair as simpatias da população local, nem conseguiu lidar com a escassez de recursos da própria ilha, árida e dependente de importações de arroz e outros bens. Em 1511, Diogo Fernandes de Beja desmantelou o forte por ordem régia, permitindo o retorno imediato dos Banu Afrar de Caxem para Suq. A ilha permaneceu sob tutela desse sultanato até ao século XIX.

Em data incerta depois do abandono português, Caxem tornou-se o aliado mais firme do Estado da Índia na Arábia Meridional, região sob forte pressão otomana desde a década de 1530. Socotorá foi neste âmbito, e durante todo o século XVI, lugar de aguada para embarcações portuguesas. A ilha exportava, para além de alguns víveres como carnes e peixe, tecidos de lã, âmbar, aloés e sangue de dragão. A sua rede tradicional de comércio ligava-a a Melinde, Magadoxo, Caxem, Ormuz, Diu e Goa.

Socotorá foi também palco para repetidas missões católicas. Destacam-se, depois do trabalho paroquial efectuado pelo Franciscano António do Loureiro entre 1507 e 1510/1511, uma missão franciscana anónima em 1542-43, uma missão jesuítica liderada por Gaspar Coelho em 1562-63, e uma missão agostinha, organizada pelo arcebispo de Goa D. frei Aleixo de Meneses e liderada por Leonardo da Graça e Valério do Loreto, em 1603-04. Devem também mencionar-se as visitas jesuíticas de Francisco Xavier em 1542 e de Gonçalo Rodrigues e Fulgêncio Freire em 1555. Mais do que por razões de política interna (a islamização maciça dos socotorinos só arrancou no século XIX), as tentativas de missionação foram goradas pelo facto do cristianismo em Socotorá ter-se afastado fortemente da ortodoxia nestoriana desde o século XIV. Durante o século XV, o cristianismo socotorino transformou-se numa religião fortemente marcada pelo antigo substrato semítico local. Nos séculos XVI e XVII, a população de Socotorá possuía já uma cultura religiosa híbrida única, que os missionários do Padroado não conseguiram entender nem controlar.

A partir de inícios do século XVII, Socotorá tornou-se num ponto de apoio ao comércio da VOC e da EIC, sem no entanto vir a ser palco de lutas armadas entre as diversas potências ocidentais. Ainda durante o século XVIII, alguns portugueses frequentaram a ilha.

Bibliografia:
BRÁSIO, António, Missões Portuguesas de Socotorá (Col. Pelo Império, 93), Lisboa, 1943. COSTA, José Pereira da, Socotorá e o domínio português do Oriente (Estudos de Cartografia Antiga, Secção de Coimbra, 82), Coimbra, 1973. BIEDERMANN, Zoltán, 'Nas pegadas do apóstolo: Socotorá nas fontes europeias dos séculos XVI e XVII', in Anais de História de Além-Mar, 1 (2000), pp. 287-386.