cidade de Tânger

Data de publicação
2009
Categorias
Período
Área Geográfica
Tânger (tanja em árabe) é uma cidade marroquina, junto ao Estreito de Gibraltar. Pela sua importante posição estratégica que permite o controlo do Estreito de Gibraltar, Tânger foi, ao longo da história, um cobiçado porto.

Segundo a mitologia, a cidade de Tânger foi fundada por Sufax, filho de Tinjis, esposa do herói berbere Anteu. A versão grega da lenda diz que Sufax era um gigante que foi morto por Hércules, numa noite que aí passara durante a execução de um dos seus doze trabalhos. Sufax seria filho de Hércules e da viúva de Anteu.

Antiga cidade fenícia, foi fundada por colonos cartagineses no século V a.C. Tânger passou a pertencer ao domínio romano no século I a.C., primeiro como cidade aliada e depois como colónia. Mais tarde foi a capital da província romana da Mauretânia Tingitana. No século V foi invadida pelos vândalos, vindos da Península Ibérica e cerca de um século mais tarde fazia parte do Império Bizantino. Finalmente, por volta do ano de 702 caiu sob o domínio árabe.

Após a conquista de Ceuta em 1415, Tânger impunha-se como a etapa seguinte na expansão portuguesa no Norte de África, sobretudo devido a motivos estratégicos. Sendo um bom porto de mar, Tânger era também a principal cidade a ocidente de Ceuta. Tomá-la significaria para os Portugueses o controlo meridional do estreito de Gibraltar. Questões de diversa ordem impediram que a expansão portuguesa no Norte de África tivesse continuidade nos anos que se seguiram à conquista de Ceuta (incluindo a opinião em contra manifestada por diversos membros da família real), mas perdida a esperança de uma expedição luso-castelhana a Granada, com a paz reafirmada e com a crescente pressão da nobreza e dos irmãos D. Henrique e D. Fernando, D. Duarte, determinou retomar o processo.

Em 1437, numa expedição liderada pelos infantes D. Henrique e D. Fernando, tendo como condestável D. Fernando, conde de Arraiolos (que anteriormente se manifestara contra a empresa), os portugueses atacaram a cidade de Tânger, naquele que foi um dos maiores desastres militares da história de Portugal, onde ficaria como refém D. Fernando, o Infante Santo.

Após o desastre, realizaram-se cortes, entre Janeiro e Fevereiro de 1438, nas quais D. Duarte solicitou opiniões sobre possíveis soluções para o cativeiro do infante D. Fernando. O infante D. Pedro, o clero e a grande maioria dos concelhos eram a favor da entrega da cidade. Havia vozes que discordavam, entre elas do infante D. João e do seu sogro, o conde de Barcelos, e cunhado, o conde de Arraiolos, dos concelhos de Lisboa e Porto e de alguns concelhos algarvios (que muito lucravam com o abastecimento da praça). Ceuta, apesar de todo o seu custo, era o único ponto da Cristandade em território infiel, pelo que deveria ser mantida a todo o custo. D. Duarte era de opinião que se deveria tentar libertar o infante D. Fernando sem entregar a praça. Mas o rei morreu antes de conseguir a libertação do irmão. Vários projectos que, ao longo da regência de D. Pedro, tentaram um novo acordo com os muçulmanos relativamente ao cativeiro do infante saíram gorados devido à desconfiança existente de parte a parte. Anos depois, a 6 de Julho de 1443, morreria também o infante D. Fernando, após seis anos de cativeiro. Com a morte do infante a questão da entrega de Ceuta deixou de se colocar, e Tânger tornou-se, mais do que um desejo, uma obrigação de conquista no reinado de D. Afonso V.

Quando em 1458 uma nova expedição portuguesa partiu para o Norte de África para tentar conquistar a praça de Alcácer Ceguer, o rei ainda vacilou e pensou na tomada de Tânger. Foi, contudo, demovido pelo infante D. Henrique, que se lembrava nitidamente do desastre de 1437. Ao longo das campanhas marroquinas em 1463-64, os Portugueses novamente tentaram, em vão, a sua sorte na conquista de Tânger.

Em 1471 surgiu nova oportunidade: beneficiando de um clima de volubilidade política no reino de Fez, D. Afonso V depressa organizou uma expedição que, desta vez, visaria Arzila, uma cidade desprovida de um porto seguro mas dotada de uma fértil região agrícola. Subjugada Arzila tornar-se-ia muito mais fácil o cerco da cidade de Tânger pelo sul.

Ao contrário do que se passou na conquista de Alcácer Ceguer, D. Afonso V praticou uma verdadeira política de terror em Arzila, recusando-se a aceitar a rendição da cidade. Enquanto D. Afonso V cercava Arzila, Mulei Xeque, senhor de Arzila e um dos mais destacados líderes oatácidas, sitiava com o seu exército a cidade de Fez numa tentativa de conquistar o poder. Avisado do cerco português na sua cidade, mas hesitando abandonar o cerco que montara a Fez, quando finalmente chegou a Arzila a fim de a defender a derrota já estava consumada. Restou-lhe apenas confirmá-la e assinar a paz com D. Afonso V. Mulei Xeque abdicava de uma cidade para poder lutar por um reino. Um ano depois seria jurado como o primeiro sultão da nova dinastia oatácida.

D. Afonso V, segundo os termos deste acordo, tornava-se no senhor "pacífico" de Ceuta, Alcácer Ceguer e Arzila com todos os seus termos, lugares e aldeias. Os moradores dos ditos locais seriam súbditos portugueses, vassalos que deveriam pagar tributo. O período de tréguas seria de 20 anos, mas a ambas as partes era salvaguardado o direito de atacar vilas e cidades amuralhadas. Estava assim garantido o direito português de conquistar Tânger.

Contudo, a conquista não foi necessária. Os habitantes abandonaram a cidade "temendo que a mortindade e estrago de Arzilla, de que por uma velha segundo se disse, foram avisados, não viesse tambem sobre elles, a tinham desamparada de todo"[Rui de Pina, Crónica de D. Afonso V, cap. CLXVII]. O rei, pouco crente na novidade, enviou à cidade cerca de 2000 cavaleiros e 5000 homens de pé liderados por D. João, filho do duque de Bragança e futuro marquês de Montemor. A cidade fora queimada antes de ser abandonada. Estranhamente, os habitantes em fuga deitaram fogo às suas casas mas não a grande parte da artilharia. D. João de Bragança encontrou "certas bombardas grossas, e muita outra artilharia e pólvora" [Rui de Pina, Crónica de D. Afonso V, cap. CLXVII]. O rei entraria na cidade no final de Agosto/início de Setembro. Para a história quiseram os cronistas passar a ideia de que o rei entrara pacificamente na cidade não conquistada numa data extremamente simbólica: a 28 de Agosto de 1471, dia de Santo Agostinho, santo que se acreditava ser de origem tangerina.

Em Tânger, D. Afonso V realizou grandes doações e procedeu a inúmeras nomeações de cargos. Antes de partir o rei quis deixar a guarnição organizada. Uma das primeiras medidas tomadas pelo monarca foi criar atalhos nas muralhas. A cidade era demasiado grande e a sua muralha tornava-se pouco defensável para o regimento português que a deveria ocupar. Com a criação dos atalhos foi possível reduzir o perímetro da muralha e reforçá-la. Desta forma a sua superfície terá sido reduzida a cerca de um quarto. Diz Fernando de Meneses na sua História de Tângere que "parecendolhe [ao rei] depois, que a Cidade era grande, e necessitava de igual presídio para sua defenda, a mandou cortar e reduzir a mil vizinhos, tendo antes mais de quatro mil"[p.33]. Quando o rei parte para o reino, Tânger era um "presídio de 40 cavallos, 150 homens de armas, 130 besteiros, 180 homens de pé, 10 bombardeiros e espingardeiros, 10 escutas"[D. Fernando de Meneses, História de Tângere, p. 33].

Após a conquista Tânger viveu um período de certa acalmia devido ao tratado firmado entre o monarca português, D. Afonso V, e o senhor de Arzila. Este clima de paz permitiu o estabelecimento de relações com o seu termo, estabelecendo zonas tributárias de "mouros de pazes", permitindo o cultivo do campo em redor da cidade e o contacto com as restantes praças portuguesas do Norte de Marrocos. Contudo, com o virar do século e o quebrar das pazes, a relação entre a cidade e a comunidade moura que a circundava deteriorou-se muito. Só através do sistema de atalaias era possível aos moradores de Tânger obter lenha e erva para os animais nos campos circundantes. Tudo o resto tinha que vir do Reino, das ilhas atlânticas ou da feitoria portuguesa da Andaluzia. Os habitantes de Tânger ficaram circunscritos à vida entre-muros, vivendo num clima de guerra constante.

A cidade permaneceu nas mãos dos portugueses até 1661, ano em que foi cedida aos Ingleses como parte do dote de D. Catarina de Bragança (filha de D. João IV) que casou com Carlos II de Inglaterra. Nesse mesmo ano, uma armada inglesa aportou na cidade e a guarnição e grande parte da população portuguesa regressaram ao Reino.

Bibliografia:
BRAGA, Paulo Drumond, «A Expansão no Norte de África», in Nova História da Expansão Portuguesa, dir. de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, Vol. II, A Expansão Quatrocentista, Editorial Estampa, 1998, pp. 237-360. DUARTE, Luís Miguel, «África», in Nova História Militar de Portugal, dir. de Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira, vol. I, Lisboa, Circulo de Leitores, 2003, pp. 392-441. MENESES, Fernando de, História de Tângere, Lisboa Ocidental, Officina Ferreiriana, 1732.