Chicova

Data de publicação
2009
Categorias
Período
Área Geográfica
Chicova - povoação, actualmente Chicôa ou Chikowa, localizada na zona do lago Cabora Bassa, na margem sul do rio Zambeze, em Moçambique (15º 36' S; 32º 20' E). O geónimo designava, ainda, a serra próxima e a área envolvente ("as terras da Chicova"). A região era dominada pela chefatura tauara (tawara) sediada em Inhacasse, a residência do mambo (chefe) da Chicova, um súbdito do Monomotapa.

Referenciada na documentação portuguesa desde a década de 1570, a Chicova ficou associada às minas de prata, que, mais do que as do ouro obtido nas feiras do Monomotapa, mobilizaram os projectos de colonização da coroa portuguesa para o vale do Zambeze e constituíram um motivo recorrente de conflito com os chefes tauaras e os mutapa (imperadores). A prata era indispensável ao comércio português com a Índia e a China, dependente dos provimentos americanos. Mormente quando estes começaram a declinar, depois de 1600, sucederam-se os planos de colonização com a nomeação de "conquistadores" para a empresa das minas.

O domínio das minas constituiu o esteio do primeiro projecto régio de territorialização da presença portuguesa na África Oriental. Em 1569, um grande exército, comandado por Francisco Barreto, saiu de Lisboa para conquistar o Monomotapa. Frustradas as tentativas para localizar veios de ouro rendíveis, o sucessor de Barreto, Vasco Fernandes Homem, virou-se para as jazidas de prata da Chicova, onde construiu um forte, em 1575. Conseguiu negociar alguma prata e deixou no forte um presídio, que acabou dizimado pelos tauaras.

Nas primeiras décadas de Seiscentos, os alvitres sobre a existência de copiosas jazidas minerais suscitaram novos programas de colonização régia. Em 1607, em troca de apoio militar, o mutapa Gatsi Rusere doou ao sertanejo Diogo Simões Madeira os cobiçados depósitos de prata e cedeu à coroa as restantes minas. No ano seguinte, foi decidido nomear um general para supervisionar a exploração mineira e erigir vários fortes, um dos quais na Chicova, para controlar as chefias africanas. Dois conquistadores foram seguidamente nomeados, D. Nuno Álvares Pereira (1608-1610) e D. Estevão de Ataíde (1610-1613), mas não obtiveram quaisquer resultados. A empresa da prata foi, então, confiada a Simões Madeira, que, em 1614, construiu na Chicova o forte de S. Miguel. Atacados pelo mutapa e assolados pela fome, em 1616, os sobreviventes abandonaram o local. Mas, Madeira provou a existência de prata, tendo extraído entre 250 e 450 Kg. A notícia conduziu à formulação, em 1617, de um novo projecto de colonização. D. Nuno Álvares Pereira foi nomeado governador e conquistador dos Rios de Cuama e das Terras do Monomotapa, com instruções para aliciar povoadores. Em 1619, enviou uma embaixada ao mutapa, que renovou a cedência das minas, e partiu para a Chicova com o mineiro castelhano Cristóvão Tirado. Porém, face a antagonismos vários e na posse de resultados medíocres, o governador desistiu da empresa. Após o tratado de 1629 com o mutapa Mavhura, que se declarou vassalo da coroa portuguesa, foi organizada em Lisboa uma grande expedição de soldados e casais para colonizar a região. Em 1633, chegou ao Zambeze um grupo de mineiros chefiado pelo castelhano D. Andrés Vides y Albarado, cujos breves ensaios para achar prata foram infrutíferos. Após a morte dos mineiros, o plano de colonização foi encerrado, em 1637.

Alheios ao insucesso das iniciativas régias, mercadores menos abastados permaneceram na margem sul do Zambeze, onde buscavam um ouro de menor qualidade. Cerca de 1672, as notícias sobre os filões argentíferos agitaram a região e, em 1676, o vice-rei nomeou João de Sousa Freire como capitão-geral dos Rios de Sena. Sousa Freire edificou um forte em Inhacasse, onde um presídio estacionou durante três anos, enfrentando a hostilidade dos chefes locais, do mutapa e dos mercadores portugueses. Após a morte do capitão, sem obter qualquer metal, o vice-rei removeu o presídio, em 1680, quando viviam 12 portugueses na Chicova.

E foi o refluxo do comércio do ouro a levar os mercadores da região a interessarem-se, finalmente, pela prata. Banidos pelo changamira de Butua das feiras do planalto karanga, em 1693-1695, os mercadores concentraram-se junto ao Zambeze, onde, em 1696, acharam de novo prata. Foram fabricados ornamentos para a igreja de Sena e dos cerca de 190 Kg de metal chegados a Goa, naquele ano, foram lavradas duas estantes e quatro castiçais para a igreja de Rachol. Lisboa chegou a enviar mineiros para a zona, em 1700, e a exploração da prata prosseguiu até por volta de 1720, quando a situação política a sul do Zambeze permitiu retomar o mais lucrativo comércio do ouro.

Os testemunhos históricos sobre a existência de prata na Chicova foram encarados como falsos ou pouco fiáveis, atribuindo-se uma origem diversa às amostras enviadas para Goa e Lisboa. Não obstante, os estudos sobre a mineralogia da bacia do Zambeze confirmaram a existência do metal na área. Essas minas não constituíam um Potosi africano, como a coroa portuguesa esperava, mas o insucesso dos programas régios de territorialização a ela associados deveu-se a várias oposições. Os chefes africanos receavam que a exploração directa das minas implicasse o domínio do seu território pelos portugueses, pelo que ofereceram uma resistência aberta ou usaram estratégias dilatórias para impedir a localização das jazidas. Do lado dos portugueses, as iniciativas régias encontraram o antagonismo dos mercadores e dos capitães de Moçambique. A exploração das minas pela coroa implicava a instauração de um numeroso aparelho administrativo que perturbava o comércio e ameaçava o poder dos grandes mercadores. Do mesmo modo, os capitães, que, até 1673, arrendavam à coroa o monopólio do comércio, temiam ficar privados dos contratos.

Quando diminuiu a extracção da prata, a Chicova ganhou outra relevância para os portugueses. No decurso do século XVIII, o local tornou-se a principal escala da carreira de Tete para a nova feira do Zumbo, ao longo do Zambeze. Devido aos rápidos de Cabora Bassa, o percurso entre Tete e a Chicova era feito por terra e daí até à feira em canoas. Na Chicova, as caravanas agrupavam-se para cumprir o restante itinerário. Dado o papel que ocupava nesta rota, a Chicova era frequentemente assediada pelos chefes de linhagem do Monomotapa, que represavam as mercadorias, exigindo elevadas compensações.

Excepto durante os períodos em que aí foram instalados os fortes e presídios, a Chicova não teve capitães portugueses nomeados. Os mercadores portugueses que residiam na região viviam sob a autoridade dos chefes locais. Actualmente, não restam vestígios materiais visíveis dessa antiga presença portuguesa.

Bibliografia:
AXELSON, Eric, Portuguese in South-East Africa 1600-1700, Johannesburg, Witwatersrand University Press, 1969; NEWITT, Malyn, A history of Mozambique, London, Hurst & Company, 1995; REAL, Fernando, Geologia da Bacia do Zambeze (Moçambique), Lisboa, JIU, 1966; RODRIGUES, Eugénia, Portugueses e Africanos nos Rios de Sena. Os Prazos da Coroa nos Séculos XVII e XVIII, Dissertação de Doutoramento em História, Universidade Nova de Lisboa, 2002.