Conrad Peutinger (e a sua colecção de documentos referentes à Expansão Portuguesa)

Data de publicação
2014
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Conrad Peutinger nasceu em meados de Outubro de 1465, em data incerta, em Augsburgo na Alta Alemanha, aí falecendo a 28 de Dezembro de 1547. Estudou direito em Bolonha e Pádua e tornou-se um dos mais afamados humanistas e bibliófilos alemães da sua época. Entre 1497 e 1534 desempenhou a função de “Stadtschreiber” (chefe da chancelaria/ administração) de Augsburgo, participando por várias vezes, como delegado desta cidade, nas denominadas Dietas Imperiais. Actuou como diplomata e economista, sendo também conselheiro dos imperadores Maximiliano I e Carlos V.

Peutinger era genro de Anton Welser, líder da casa comercial dos Welser-Vöhlin, e sócio desta célebre companhia alemã. Através das suas íntimas ligações económicas e familiares aos Welser, que fundaram, em 1503, uma feitoria em Lisboa, o humanista desenvolveu um interesse especial pela Expansão Portuguesa. Um dos seus principais informadores, no que se referia aos acontecimentos relacionados com os Descobrimentos Portugueses, foi Valentim Fernandes. Este famoso tipógrafo, que viveu em Portugal desde finais do século XV, remeteu, em Maio de 1503, para Peutinger notícias da viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. O respectivo documento, conhecido como “o Auto notorial de Valentim Fernandes”, tem o título “Navigatio Portugallensium ultra aequinoctialem Circulum” e contém uma breve descrição da população autóctone e da flora e fauna da Terra de Vera Cruz, fornecendo também informações sobre alguns produtos exóticos que os portugueses importavam.

Em meados do século XIX foram encontrados no espólio de Conrad Peutinger, na Staats- und Stadtbibliothek em Augsburgo, outras fontes sobre a Expansão Portuguesa que o humanista alemão recebeu em parte de Valentim Fernandes. Em 1861, B. Greiff publicou a respectiva colecção que contém os seguintes escritos, redigidos em alemão (docs. I a X) e latim (doc. XI):

I. a tradução de um “relato sucinto do mundo novo do ano de 1501” acerca da viagem de Américo Vespúcio com Gonçalo Velho ao Brasil;

II. uma relação sobre a primeira viagem de Vasco da Gama à Índia;

III. um relato, datado de 27 de Junho de 1501, referente à expedição de Pedro Álvares Cabral;

IV. uma carta sobre a segunda viagem de Vasco da Gama à Índia, traduzida do italiano para o alemão, por Conrad Peutinger e Christoph Welser, seu cunhado;

V. o relato de Francisco de Albuquerque, escrito na Índia no dia 27 de Dezembro de 1503, acerca da primeira parte da expedição portuguesa de 1503/04;

VI. o fragmento de uma carta dirigida a Augsburgo, também sobre a viagem à Índia em 1503/04 (Lisboa, 10.10.1504);

VII. uma descrição do percurso da armada de Lopo Soares de Albergaria, de Lisboa para Calicut, em 1504;

VIII. uma “carta comercial” de Anton Welser a Conrad Peutinger (Augsburgo, 11.12. 1504), com um trecho de uma carta que havia chegado dois dias antes a Augsburgo, sendo este último redigido, a 18 de Novembro de 1504, em Antuérpia, por um agente comercial dos Welser;

IX. a cópia de um relato sobre a viagem de D. Francisco de Almeida à Índia, em 1505; X. uma carta de Conrad Peutinger ao secretário de Maximiliano I, Blasius Hölzl, datada de 3 de Janeiro de 1505, que anunciou a participação directa de agentes comerciais alemães na próxima frota portuguesa com destino à Ìndia;

XI. um trecho de uma carta de Valentim Fernandes a Conrad Peutinger, redigido, em Lisboa, no dia 16 de Agosto de 1505.

Nesta última carta mencionada, o remetente comunicou a partida da armada de D. Francisco de Almeida para a Índia e os alegados objectivos estratégicos desta expedição. O tipógrafo alemão despediu-se, anunciando, para breve, o envio de uma “genealogia da imperatriz [D. Leonor]”. De facto, Peutinger recebeu, pouco depois, uma genealogia dos reis e príncipes dos reinos ibéricos e um exemplar da “Epistola ad Summum Romanum Pontificem”, uma carta, originalmente dirigida por D. Manuel I ao papa Júlio II, que Valentim Fernandes tinha impresso em 1505.

Seguiram-se outros documentos acerca das viagens dos Descobrimentos que chegaram às mãos de Peutinger como, por exemplo, o denominado “Manuscrito Valentim Fernandes”. Esta preciosa colecção foi compilada pelo prestigiado impressor entre 1506 e 1510, aproximadamente, e contém vários documentos redigidos em latim e em português. Os textos, parcialmente fragmentários e não organizados por ordem cronológica, referem-se a múltiplos aspectos da História da Expansão Portuguesa.

H. Lutz encontrou no espólio de Conrad Peutinger ainda uma tradução, em latim, de uma carta que Valentim Fernandes tinha enviado a um amigo de Nuremberga em 1515. A tradução, intitulada “Descriptio Indiae”, foi elaborada pelo próprio Peutinger e inclui uma descrição pormenorizada do rinoceronte, ou seja, da famosa ganda de Cambaia que tinha chegado a Lisboa, em Maio do mesmo ano.

Ao que parece, Conrad Peutinger pouco fez para a divulgação das notícias sobre os Descobrimentos Portugueses. Contemporâneos seus acusaram-no, inclusive, de conservar com excessivo zelo a sua impressionante biblioteca com cerca de 2.200 volumes, sendo um deles Damião de Góis, que a viu no início dos anos 40 de Quinhentos.

Bibliografia:
ANDRADE, António Alberto Banha de, “O Auto Notarial de Valentim Fernandes (1503) e o seu Significado como Fonte Histórica”, Arquivos do Centro Cultural Português, 5 (1972), pp. 521-545; “Briefe und Berichte über die frühesten Reisen nach Amerika und Ostindien aus den Jahren 1497 bis 1506 aus Dr. Conrad Peutingers Nachlass”, in: B. Greiff (ed.), Tagebuch des Lucas Rem aus den Jahren 1494-1541. Ein Beitrag zur Handelsgeschichte der Stadt Augsburg, Augsburg, 1861, pp. 112-172; Códice Valentim Fernandes, leitura paleográfica, notas e índice de José Pereira da Costa, Lisboa, 1997; LUTZ, Heinrich, Conrad Peutinger. Beiträge zu einer politischen Biographie, Augs-burg, 1958.